Fogo e ciências

Um dia que os cientistas choraram

Carl Sagan, no início de sua série Cosmos lamentava o fim da Biblioteca de Alexandria.

Ilustração da Biblioteca de Alexandria

Ele descrevia a Bibliteca:

” (…) Alexandria era a capital editorial do planeta. É claro que na altura não existia a imprensa. Os livros eram caros; cada exemplar tinha de ser copiado à mão. A biblioteca era o repositório das melhores cópias do mundo. Foi ali inventada a arte da edição crítica. O Antigo Testamento chegou-nos directamente das traduções gregas feitas na Biblioteca de Alexandria. Os Ptolomeus usaram muita da sua enorme riqueza na aquisição de todos os livros gregos, assim como dos trabalhos originários de África, da Pérsia, da Índia, de Israel e de outras regiões do mundo. Ptolomeu III Evergeto tentou pedir em empréstimo a Atenas os manuscritos originais ou as cópias oficiais das grandes tragédias de Sófocles, Esquilo e Eurípedes. Para os atenienses, esses textos eram uma espécie de património cultural — um pouco como, para a Inglaterra, os manuscritos ou as primeiras edições das obras de Shakespeare; por isso, mostraram-se reticentes em deixar os manuscritos sair das suas mãos por um instante que fosse. Só aceitaram ceder as peças depois de Ptolomeu ter assegurado a devolução através de um enorme depósito em dinheiro. Mas Ptolomeu dava mais valor a esses manuscritos do que ao ouro ou à prata. Preferiu por conseguinte perder a caução e conservar, o melhor possível, os originais na sua biblioteca. Os atenienses, ultrajados, tiveram de se contentar com as cópias que Ptolomeu, pouco envergonhado, lhes deu. Raramente se viu um estado encorajar a busca da ciência com tal avidez.

Os Ptolomeus não se limitaram a acumular conhecimentos adquiridos; encorajaram e financiaram a investigação científica e deste modo geraram novos conhecimentos. Os resultados foram espantosos: Eratóstenes calculou com precisão o tamanho da Terra, traçou o seu mapa, e defendeu que se podia atingir a Índia viajando para oeste a partir de Espanha; Hiparco adivinhou que as estrelas nascem, deslocam-se lentamente ao longo de séculos e acabam por morrer; foi o primeiro a elaborar um catálogo indicando a posição e magnitude das estrelas de modo a poder detectar essas mudanças. Euclides redigiu um tratado de geometria com base no qual os seres humanos aprenderam durante vinte e três séculos, trabalho que iria contribuir para despertar o interesse científico de Kepler, Newton e Einstein; os escritos de Galeno acerca da medicina e da anatomia dominaram as ciências médicas até ao renascimento. E muitos outros exemplos (…)”
Carl Sagan, in “Bibliteca de Alexandria

Carl Sagan sempre me pareceu chorar por tudo aquilo que a humanidade perdeu nos (vários) incêndios da Biblioteca de Alexandria.

– – –

O fogo destruíndo a ciência

Quando lí a notícia do incêncio no Instituto Butantan, pensei no incêncio da Biblioteca de Alexandria.

Bombeiro faz o rescaldo do prédio queimado no Instituto Butantan
Foto: Nelson Antoine/Foto Arena/Agência Estado

Desde que tenho memórias, ouço falar do Instituto Butantan como um lugar de ciência e de cura.

Sempre imaginei que se fosse mordido por uma serpente venenosa, minha cura viria do Instituto Butantan.

Segundo nota da Sociedade Brasileira de Zoologia, “foram perdidos mais de 500 mil espécimes entre ofídios e aracnídeos“.

No site UOL, um relato de um pesquisador:

“A perda é irreparável. Aquele material não tinha preço e não existe outro igual. Perdemos mais com o incêndio do Butantan do que se tivéssemos queimado dezenas de bibliotecas, pois as bibliotecas são compostas quase sempre por livros publicados em série, já muitas serpentes que compunham o acervo do Butantan eram únicas e já não existem mais”, lamenta Miguel Trefaut Urbano Rodrigues, herpetólogo do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).

Na mesma reportagem do UOL o historiador da Casa de Oswaldo Cruz, Luiz Antonio Teixeira, explica que a coleção era resultado da colaboração e do trabalho da população brasileira, além da profunda dedicação de cientistas de diversas épocas. E completa:

“O acervo tinha grande importância histórica, porque os primeiros exemplares foram colhidos pelo próprio Vital Brasil, fundador do Butantan. Há cerca de 100 anos, ele criou o costume de trocar serpentes trazidas pela própria população por ampolas de soro. No início, muitos exemplares foram conseguidos dessa forma. Assim foi construída a base da coleção”

Nos jornais, afirma que 120 anos de amostras de espécies, algumas deles únicas, foram perdidas.

Qualquer shopping center ou banco que se vá hoje, possui um sistema de combate à incêndios montado.

Como explicar que um Centro de Pesquisas Internacional como o Instituto Butantan não tenha?

Precisamos que nossa nação proteja melhor sua ciência, seu patrimônio cientifico e histórico.

Para saber mais, lei abaixo a carta Sociedade Brasileira de Zoologia:

Um alerta para situação das coleções científicas

Excelentíssimo Senhor
Sérgio M. Rezende
MD Ministro da Ciência e Tecnologia

Prezado Senhor,

A Comunidade científica acabou de perder um acervo magnífico, com o incêndio ocorrido neste último final de semana no Instituto Butantan em São Paulo. Há muito tempo que a Sociedade Brasileira de Zoologia vem discutindo, nos fóruns em que participa, sobre a melhoria das condições de coleções científicas nacionais. Entendemos que o ocorrido foi uma fatalidade, porém, este fato deve ser considerado como um alerta pois existem várias outras coleções científicas instaladas em prédios antigos e inadequados, com acervos históricos de áreas que muitas vezes nem mais existem devido às ações antrópicas.

Entendemos que chegamos em um momento importante e crucial. Devemos deixar diferenças de lado e solicitarmos uma ação transversal entre ministérios para um programa urgente de melhoria das coleções científicas. É inconcebível que estas não contem com acondicionamento apropriado para o material e condições mínimas de segurança e preservação de seu acervo. Urge também a necessidade de catalogação das informações em meio digital descentralizado, garantindo assim a perpetuação das informações e o necessário acesso irrestrito a estas informações pela comunidade científica e leiga.

No Instituto Butantan foram perdidos mais de 500 mil espécimes entre ofídios e aracnídeos. Como recuperar estas informações? Não há como! Mas devemos pensar que há inúmeras outras coleções científicas em risco, pois os locais onde estão acondicionados milhões de espécimes são inapropriados e as condições de segurança são precárias, não apenas contra incêndios, mas também contra infiltração de umidade, vandalismos, roubos, etc.

O acervo consumido pelo fogo, não é apenas um prejuízo da comunidade científica brasileira, mas sim da humanidade. Seu valor histórico é incalculável. Não foram simples cobras ou aranhas e escorpiões que se perderam. Perdeu-se sim, importantes informações sobre nossa biodiversidade que foram consumidas pelo fogo e pela falta de atenção do poder público. Se não houver uma política pública de longo prazo para manutenção e ampliação dessas coleções, poderemos perder muito mais.

Sociedade Brasileira de Zoologia

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Um pensamento sobre “Fogo e ciências

  1. Verdadeiramente, uma tristeza! Tantos anos de trabalho e dedicação,muitas vezes a um único ser e agora por algum motivo não justificavel, perderam eles e nós que pretendemos seguir esta carreira um dia .

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