A caminhada humana, começou antes do que se esperava

No estudo paleontológico e antropológico das origens da humanidade, há já um acordo geral da origem humana na África.

Terra mãe, a África é berço da humanidade. Mas o oriente médio é o chiqueirinho por onde a humanidade firmou seus passos para a conquista do resto do planeta.

 

Homem saiu da África antes do imaginado

Machados e outras ferramentas de 125 mil anos foram encontradas em sítio arqueológico nos Emirados Árabes

O que é que esta gente estava fazendo lá? Essa é a pergunta que arqueólogos pelo mundo inteiro estão se fazendo agora, com a publicação de um trabalho na “Science” que vai mudar o mapa da ocupação do planeta pela espécie humana.

O que aconteceu foi que arqueólogos encontraram artefatos humanos fora da África muito antes de… bom, muito antes de os humanos terem saído da África -eles não precisaram se esforçar muito para perceber que isso não fazia muito sentido.

É consenso há décadas que o Homo sapiens surgiu na África há 200 mil anos -a noção de “mama África” une os arqueólogos a Chico César- e saiu do continente para ocupar todos os cantos do mundo há 60 mil anos.

Mas as ferramentas humanas de cortar, furar e raspar (especialmente machados) encontradas nos Emirados Árabes têm 125 mil anos, segundo uma técnica chamada datação por luminescência -grosso modo, o solo vai alterando as propriedades químicas originais do material. Quando mais “alteradas”, então, mais antigas.

Os donos dos machados poderiam, de fato, ter atravessado o mar Vermelho com certa facilidade, molhando apenas as canelas. O mar estava, dizem os climatologistas, bem mais seco na época, tendo várias regiões rasas.

Os livros didáticos, então, terão de ser alterados agora. “O estudo levanta muito mais perguntas que respostas”, diz Jeffrey Rose, arqueólogo da Universidade de Birmingham (Reino Unido).

Ele fala isso porque ninguém sabe se essa expedição humana pioneira teve sucesso (e então seria razoável imaginar que eles acabaram chegando a regiões como a Índia e até a Austrália) ou se estamos falando apenas de uma meia dúzia de perdidos que se afastaram da África e acabaram morrendo, sem deixar descendentes.

Se a última hipótese for a verdadeira, a resposta para a pergunta que inicia este texto é simples: estavam, sim, desbravando a região, mas acabaram fracassando e não são nossos ancestrais, honra que fica reservada mesmo para grupos que saíram da África milhares de anos depois, como já se imaginava.

Mas é difícil cravar essa conclusão. Ao contrário do mar Vermelho, então mais seco, o clima da península Arábica, na época, era bem úmido: esses pioneiros devem ter encontrado grandes savanas, repletas de grandes animais como gazelas.

Se a carne era farta, por que eles teriam morrido fácil? A hipótese de guerra também não convence muito: os neandertais, por exemplo, que talvez pudessem oferecer riscos, viviam bem longe, perto da Europa.

Justamente por ser uma região úmida, é difícil que fósseis humanos da época possam ser encontrados hoje na região, trazendo mais informações sobre o que aconteceu com esse grupo. A umidade do solo não favorece a conservação dos ossos -por isso é difícil encontrar fósseis na Amazônia, por exemplo.

Existe uma chance, então, de simplesmente não ser possível saber qual foi o destino daquelas pessoas.

(Ricardo Mioto – Folha de SP, 28/1)

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