ONU: dois pesos, duas medidas

O presente artigo foi publicado na revista eletrônica Carta Maior.

A autora Larissa Ramina é  doutora em Direito Internacional pela USP e professora da UniBrasil e da UniCuritiba. O artigo abre uma discussão correta e necessária sobre a ONU. O seu papel na atualidade é verdadeiramente de realizar um trabalho sujo sem proporções.

Só discordo de uma questão. Não é fato progressivo o Brasil se abster com a Russia, China, Índia e Alemanha. Se nosso país estivesse realmente preocupado com o povo Líbio, não poderia se abster. Deveria votar contra.  A abstenção é a indiferença a extensão da guerra que já se desenvolve no Afeganistão desde 2001 e no Iraque desde 2003 para o território líbio. Não tenho nenhuma simpatia pelo Coronel Khadafi.  Ele, desde os atentados de 11 de setembro se tornou um grande amigo dos EUA, da França e até de Israel. No caso da França, ele chegou a financiar a campanha do atual presidente Sarkozy, como declarou um dos filhos de Khadafi. Mas quem deve dar um fim na ditadura Líbia é o povo da líbio.

O que as potências européias e os EUA querem é saquear a Líbia como já fazem com o Iraque. E querem também pressionar os povos da Tunísia e do Egito para que não avancem com o processo revolucionário que desenvolvem por liberdade, por seus direitos trabalhistas (emprego, salários)  e soberania de suas nações.

ONU: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Larissa Ramin

Em 1994, Ruanda foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

A Líbia foi o primeiro país em toda a história do Conselho de Direitos Humanos da ONU a ser suspenso de suas atividades por violação dos direitos humanos. Seria a Líbia o primeiro Estado a ocupar uma cadeira no Conselho a violar aqueles direitos? O que dizer das prisões norte-americanas em Guantânamo e da expulsão dos ciganos na França, para citar só dois exemplos?

O Conselho de Segurança da ONU adotou, em 17 de março, uma resolução autorizando ataques aéreos contra as forças de Muamar Khadafi. A resolução foi adotada com dez votos a favor e cinco abstenções. Abstiveram-se todos os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China, e mais a Alemanha. Rússia e China, portanto, não fizeram uso de seu direito de veto. Os BRIC articularam-se com base na condenação do uso da força nas relações internacionais e na busca do diálogo.

Ao contrário da expectativa de alguns círculos, a abstenção brasileira significou, no mínimo, que não haverá uma ruptura total com os rumos da política externa antecessora, nem mesmo diante da visita de Obama ao Brasil. A liderança de Dilma Roussef não penderá para o alinhamento automático com os EUA. Como bem salientou Luiz Aberto Moniz Bandeira, a defesa dos interesses nacionais brasileiros não significa, absolutamente, antiamericanismo. A opção brasileira de se abster demonstra maturidade e, sobretudo, coerência.

A resolução contra a Líbia só pôde ser adotada quando os EUA tornaram possível seu não envolvimento direito, delegando a execução das operações militares à França e ao Reino Unido, com o apoio da Liga Árabe, e com base em uma resolução do Conselho de Segurança, precavendo-se assim de reviver a situação ocorrida no Iraque.

A Líbia integrará, portanto, a lista de antigos aliados ocidentais que se tornaram alvos militares por “violação dos direitos humanos”, junto com o Panamá de Manuel Noriega, o Iraque de Saddam Husseim e o Afeganistão do Talibã. De “cachorro louco”, Khadafi passou a amigo do Ocidente quando reconheceu, em 2003, sua responsabilidade no atentado contra o avião da PanAm que explodiu sobre a cidade de Lockerbie, em 1988, deixando 270 mortos, e desistiu de seu projeto de desenvolver armas nucleares. Em 2006, os EUA anunciaram a retirada da Líbia da lista de países terroristas e puseram fim ao seu isolamento internacional, viabilizando contratos milionários na área energética, inclusive com outros importantes países membros da OTAN.

Um dos maiores crimes contra os direitos humanos do século XX, entretanto, ocorreu sob os olhos indiferentes da comunidade internacional, sem que a ONU adotasse quaisquer medidas. Em 1994 a Ruanda, país sem qualquer importância estratégica cravado no coração da África, foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

O Bahrein, por sua vez, está sendo palco dos mais graves protestos da maioria xiita contra a elite sunita desde a década de noventa, que pede o fim da monarquia e a garantia das liberdades democráticas. Nesse caso, não se aventou a possibilidade de discutir a situação no âmbito das ONU, apesar da ocupação do país por tropas da vizinha Árabia Saudita e dos Emirados Árabes. O detalhe que faz a diferença, é que o microestado abriga a V Frota dos EUA responsável por vigiar o petróleo no Golfo Pérsico. A situação no Iêmen, da mesma forma, não mereceu atenção ocidental. A política externa de Barack Obama, portanto, coincide na essência com aquela de George Bush.

Coincidência ou não, a conduta da ONU também difere diante de situações similares, e a lei internacional é aplicada com mais ou menos rigor de acordo com a conveniência. Dois pesos, duas medidas.

LARISSA RAMINA é Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da UniBrasil e da UniCuritiba.

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Um pensamento sobre “ONU: dois pesos, duas medidas

  1. Vivenciamos o prelúdio de uma nova era de guerras que possivelmente irá resultar em uma guerra de grandes proporções. A História está se repetindo. Será uma guerra vil, de cunho meramente econômico, sem qualquer ideologia. Diferentemente da 2ª Guerra Mundial, as democracias ocidentais passam a ser os Estados agressores. O gado, digo, o povo como sempre alienado.

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