Palavrões: grosseria na linguagem e alívio para a dor

Nas minhas aulas sempre discuto a questão dos palavrões. A questão não é simples.

Falar palavrões é algo que já não significa a mesma coisa que uma década atrás. É um aspecto das mudanças culturais da sociedade e da própria dinâmica da linguagem.

Feio ou aceitável? Deplorável ou normal? Esse é um longo debate.

O pensador revolucionário russo Leon Trotsky, por exemplo,  escreveu sobre o tema no livro “Questões do Modo de Vida” no Capítulo “É preciso lutar por uma liguagem depurada“.  A definição dele sobre a “grosseiria de linguagem” é interessante:

A grosseria de linguagem — em particular a grosseria russa— é uma herança da escravidão, da humilhação e do desprezo pela dignidade humana, tanto a alheia como a própria. Seria necessário perguntar aos filólogos, aos linguistas e aos folcloristas se se encontra noutros países uma grosseria tão desenfreada, tão repugnante e tão chocante como entre nós. Tanto quanto sei, não existe em nenhuma outra parte. Nas camadas populares, a grosseria exprime o desespero, a irritação e, acima de tudo, uma situação de escravo sem esperança e sem saída. Mas essa grosseria nas camadas superiores, na boca de um senhor ou do intendente de um domínio, era a expressão de uma superioridade de classe, do firme e do inabalável direito do esclavagista. Diz-se que os provérbios são a expressão da sabedoria popular, são-no também da ignorância, dos preconceitos e da escravatura. “Um palavrão depressa se esquece”, diz um antigo provérbio russo que não reflecte apenas a escravatura mas também a sua aceitação passiva. Dois tipos de grosseria — a dos “barines”, dos funcionários, da polícia, uma grosseria de repleto, de voz cheia, e uma outra, esfomeada e desesperada — coloriram a vida russa com seus tons repugnantes. E a revolução herdou isso, como muitas outras coisas.

A novidade agora é esse estudo divulgado pela BBC Brasil realizado por pesquisadores ingleses de que os palavrões ajudam a aliviar a dor. No mínimo podemos dizer que é uma divertida notícia.

Falar palavrões pode ajudar a aliviar a dor

Dizer palavrões pode ajudar a aliviar a dor – mas apenas em pessoas que não xingam com frequência, concluíram pesquisadores de uma universidade britânica.

O estudo, dos pesquisadores Richard Stephens e Claudia Umland, da Keele University, em Newcastle-Under-Lyme, Inglaterra, será apresentado na conferência anual da British Psychological Society em Glasgow, na Escócia, em maio.

Um estudo feito anteriormente pela dupla já havia constatado que xingar pode reduzir a sensação de dor.
Quando diziam palavrões, participantes conseguiam manter suas mãos dentro de baldes contendo água gelada durante mais tempo.

Alívio da Dor Aguda

O estudo atual examinou se pessoas que dizem palavrões com mais frequência sentem tanto alívio quanto aquelas que xingam menos frequentemente.

Um total de 71 voluntários com idades entre 18 e 46 anos preencheram um questionário que avaliava com que frequência eles diziam palavrões.

Mais uma vez, a tolerância à dor foi medida com base em quanto tempo cada participante conseguia manter suas mãos em um balde contendo água gelada.

Os resultados revelaram que, quando comparados os índices de tolerância à dor com e sem xingamentos, os participantes que tinham o hábito de falar palavrões com mais frequência na vida diária conseguiram menos acréscimo de tempo ao xingar.

– A mensagem deste último estudo é interessante –, disse Stephens.

– Se por um lado ele diz que xingar, como resposta à dor, pode ser benéfico, também há evidências de que se você xinga com muita frequência em situações do dia a dia o poder do xingamento não vai estar lá quando você precisar dele.

– E se por um lado eu não defenderia o uso do xingamento como parte de uma estratégia médica de controle da dor, nosso estudo sugere que deveríamos ser mais tolerantes em relação a pessoas que xingam quando sentem dor forte.

– De vez em quando, recebo cartas de pessoas que relatam episódios em que, como adultos, foram castigados por dizer palavrões em situações dolorosas. Elas acham que as conclusões dos meus estudos provam que suas ações foram justificadas.

Fenômeno Universal

Stephens e sua equipe acreditam que o alívio da dor ocorra porque xingar desencadeia no organismo a chamada reação de luta ou fuga.

Eles observaram que houve uma aceleração nas batidas do coração dos participantes que xingavam, uma resposta fisiológica associada ao comportamento agressivo.

O estudo provou, portanto, que dizer palavrões produz não apenas uma resposta emocional, mas também física.

Ele ajuda a explicar por que a prática de dizer palavrões persiste na humanidade desde tempos imemoriais.

– A prática de xingar existe há séculos e é um fenômeno linguístico humano universal –, disse Stephens.

– Ela parece ocupar o lado direito do cérebro, enquanto a maior parte da atividade linguística ocorre no hemisfério esquerdo –, explicou.

– Nosso estudo aponta uma possível explicação para por que o xingamento surgiu e por que persiste.

Fonte: BBC Brasil, via Correio do Brasil.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s