Condições, fuga da realidade e absurdos

Discuti o tema em sala de aula nas turmas de Santo André e Guarulhos. É sempre uma discussão boa.

O uso de drogas na nossa sociedade é algo verdadeiramente questionável.  Perder os sentidos, desligar-se da realidade ou ver a realidade deformada pela ação de substâncias entorpecentes.

Não existe uma resposta única. Há casos e casos. Alguns são de covardia, onde encarar a realidade é tão doloroso que é mais fácil fugir dela. Outros falta de noção simplesmente, onde a incapacidade de dicernimento leva a pessoa a fazer isso sem pensar em nada. Aqui entra aqueles que seguem o embalo dos “amigos” sem consciência do que estão fazendo.
E eu não estou falando de uma cerveja ou duas taças de vinho antes que venham aqueles que tanto defendem a tese da liberação das drogas para argumentar que álcool são drogas iguais a trodas as outras.

A realidade é muito mais insana e louca (para as coisas boas e ruins) do que qualquer aluncinação que alguma substância pode nos fornecer. Basta perceber o mundo plenamente por meio de todos nossos sentidos. Buscar entender isso é o príncipio da razão que nos faz sermos seres humanos. Fugir disso é fugir da nossa própria humanidade.

Também há casos em que as drogas são resultado das condições. Não estou justificando, estou constatando.

O caso dos boias frias do corte de cana pode ser um bom exemplo. A profunda exploração sobre o trabalhador empurra ele para essa situação.

Uma matéria publicada pelo jornal Agora em  “Droga urbana, crack chega aos canaviais de São Paulo” que pode ser lida no site do Reporter Brasil dá a dimensão do problema. Para quem corta mais de 10 toneladas de cana no braço, as drogas são a fuga das dores.  E o caminho para o inferno na terra.

Quando se vive essa realidade as drogas são a fuga contra a dor.

O jovem maranhense E.D., 27, está feliz com os R$ 900 de salário mensal. Ele não vê a hora de encerrar mais uma jornada. Às 15h20, o bóia-fria já cortou dez toneladas de cana, e agora quer relaxar com os conterrâneos. No alojamento, onde mora com 18 colegas, nem troca a roupa imunda de fuligem antes de largar o podão.

Com o cachimbo improvisado em um cano de plástico, vem a “recompensa” por mais um dia exaustivo. “É uma tragada e a dor nas costas passa na hora.” (…)

“O crack aparece nas situações degradantes para o ser humano, como entre os moradores de rua. Nos canaviais, a droga volta a surgir como algo para enfrentar o insuportável”, analisa a pesquisadora Maria Lúcia Ribeiro, coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
O jovem maranhense E.D., 27, está feliz com os R$ 900 de salário mensal. Ele não vê a hora de encerrar mais uma jornada. Às 15h20, o bóia-fria já cortou dez toneladas de cana, e agora quer relaxar com os conterrâneos. No alojamento, onde mora com 18 colegas, nem troca a roupa imunda de fuligem antes de largar o podão. (…)

Em 2006, a cientista social Maria Aparecida Moraes, da Unesp de Araraquara (273 km de SP), entrevistou bóias-frias que diziam cortar cana “com o diabo no corpo”. Pesquisadora do trabalho dos migrantes nas lavouras há 30 anos, ela diz ter descoberto que o “diabo” era, na verdade, o crack.

“O crack diminui as dores no corpo dos bóias-frias, assim como a maconha”, diz. “Outro dado relevante é que muitos migrantes regressam para seus Estados de origem com droga para vender”, diz a cientista.
(“Droga urbana, crack chega aos canaviais de São Paulo”)

Qual é a realidade?

Eu inclusive faço uma correção de um dado apresentado na aula sobre os números do corte da cana. Pesquisando o assunto encontrei os dados citados na matéria “O submundo da produção da cana-de-açúcar em São Paulo” publicada pelo jornal Folha de S. Paulo:

em 2005, de cada mil trabalhadores no cultivo da cana, 48 sofreram acidente ocupacional, registraram as pesquisadoras da USP Márcia Azanha Ferraz Dias de Moraes e Andrea R. Ferro.

Naquele ano, segundo o Ministério do Trabalho, morreram de acidentes 84 pessoas no setor sucroalcooleiro, incluindo lavoura e indústria (3,1% das mortes por acidentes de trabalho no Brasil). O Ministério Público do Trabalho investiga a razão dos óbitos e sua associação com o caráter exaustivo do corte manual.

Relatório de 2006 da Secretaria de Inspeção do Ministério do Trabalho enumera dezenas de irregularidades em empresas nas quais trabalhavam os lavradores que morreram.

Uma é o não cumprimento do descanso de uma hora para o almoço. Os cortadores comem em dez, 20 minutos, para logo empunhar de novo o facão. Eles ganham por produção. Nenhum laudo atesta que a atividade foi decisiva para os óbitos. Seria difícil: dos oito esquadrinhados pelo ministério, só em dois houve necropsia. (…)

Em 1985, os cortadores do Estado produziam em média 5 toneladas diárias de cana. Em 2008, são 9,3 toneladas, 86% a mais. Há 23 anos, um lavrador recebia R$ 6,55 por tonelada e R$ 32,70 por jornada. Em 2007, 1.000 kg valeram R$ 3,29. A remuneração por dia, R$ 28,90 (menos 12%).

A produtividade disparou e o salário caiu. Com a mecanização acelerada do corte e a expansão do desemprego, ficam os mais eficientes. O homem compete com a colheitadeira. (…)

Exige alto esforço físico uma atividade em que é preciso dar 3.792 golpes com o facão e fazer 3.994 flexões de coluna para colher 11,5 toneladas no dia. Nos últimos anos, mortes de canavieiros foram associadas ao excesso de trabalho. (…) (O submundo da produção da cana-de-açúcar em São Paulo – os negritos são meus.)

Nessas condições, parafraseando a afirmação do filósofo alemão Karl Marx diria que a miséria das drogas é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. As drogas acabam sendo um soluço da criatura oprimida, um coração em um mundo sem coração, um espírito de uma situação carente de espirito. É religião dos viciados. (quem quiser ver a frase original pode ler no final do texto).

Mas quando lí a coluna do doutor Jairo Bouer no caderno Folhateeen da Folha de S. Paulo desta semana tentei refletir sobre a questão e não consegui chegar a uma conclusão.

Veja um trecho:

“NA ALEMANHA, uma nova maneira de “consumir” álcool preocupa as autoridades. Garotas estão colocando absorventes internos umedecidos com vodca em suas vaginas para potencializar os efeitos, despistar as autoridades e “disfarçar” o cheiro da bebida.

A absorção pela mucosa vaginal é intensa, e o álcool cai diretamente na corrente sanguínea. A prática não é exclusividade feminina. Garotos estariam usando a mesma técnica ao introduzir os absorventes no ânus.” (Notícia perigosa: ficar bêbada pela vagina)

Já havia visto a história de jovens sem noção que estavam usando vodka pelo olho, com vários ficado com problemas de visão. Se soma agora essa história relatada pelo Jairo.

É um debate sem uma resposta definitiva, mas creio que a principal razão é a falta de perspectivas. E a falta de perspectivas leva a falta de noção. É o mundo dos filmes apocalítipos de Hollywood, onde a ausência de futuro desdobra-se na ausência da consciência sobre o presente.

Ao invés de fugir da consciência do mundo através das drogas ou religiões fica a evidente necessidade de entender e transformar o mundo que vivemos. Tomar o futuro em mãos e fazer dele algo para valer a pena. É preciso pensar para fazer isso. É preciso lutar para conquistar isso.

– – –

Para quem quiser ver a frase original de Karl Marx escrita na sua obra Introdução à Crítica da Filosofia de Hegel:

“A miséria religiosa é, de um lado, a expressão da miséria real e, de outro, o protesto contra ela. A religião é o soluço da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação carente de espirito. É o ópio do povo.”

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