Cadê os negros e índios da São Paulo Fashion Week?

Interessante texto sobre o mundo da moda e a participação dos “modelos” da moda. “Modelo” é um conceito curioso.  É quem dita a moda. O mercado dita “modelos” para tudo. É parte da lógica do sistema capitalista que impõe na boa definição da jornalista e escritora canadense Naomi Klein “a tirania das marcas”.

O Brasil tem rosto. O censo nacional de 2010 realizado pelo IBGE encontrou o Brasil sendo composto por 91 milhões de brancos, 82,2 milhões de pardos, 14,5 milhões de negros, 2,1 milhões de amarelos e 817 mil indígenas. E a propaganda esconde a rosto do Brasil pois ele é exageradamente fora do “target” (alvo, objetivo, diria o dicionário). Isso tem motivo, a cara da maioria do povo brasileiro é cara de trabalhadora que mistura a origem africana, imigrante euro-asiática e indigena para ralar todos os dias.

Do Blog Viva Mulher, da minha amiga Maíra Kubík Mano

Em 2008, o Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para investigar uma possível discriminação racial na São Paulo Fashion Week (SPFW). À época, apenas 3% dos modelos que participavam do evento eram afrodescendentes, negros ou indígenas. Meses depois, a organização da SPFW aceitou assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que se comprometia a estimular as grifes a cumprir uma cota de 10% desses modelos por desfile. O TAC funcionou bem… até o mês passado, quando “vencia” sua validade. Com o fim da obrigatoriedade de o evento promover as cotas, o que se viu nas passarelas foi uma nova onda branca.

A denúncia foi feita hoje pelo jornal Folha de S.Paulo, em matéria de Nina Lemos e Vitor Angelo. Algumas grifes, segundo eles, tinham apenas uma modelo, que se repetia em todas: a top Bruna Tenório, descendente de indígenas. Outras “até colocaram” alguns negros, mas longe dos 10% estabelecidos pelo MP.

Mas o pior de tudo são as justificativas para não empregá-los. Uma delas é a falta de mão de obra no mercado. É, de fato, a população afrodescendente nem é a maioria do país, deve ser difícil mesmo encontrá-los… Outra desculpa é o pouco poder aquisitivo dos negros. “Os negros no Brasil, por razões históricas, são pobres e não consomem moda. Por isso, as marcas não querem associá-lo aos seus produtos”, declarou à reportagem o booker Bruno Soares.

Esse tipo de afirmação e outras como “valorizar o negro é inverter o preconceito” só me levam a concluir que, realmente, o mundo da moda não entendeu nada do que o MP queria mostrar. Cotas são uma medida reparatória. Sua ideia é justamente compensar alguma situação de inequidade profunda contra um grupo social ou uma etnia. Assim, se os estudantes de escola pública, em geral de uma classe social desfavorecida, não conseguem ter acesso ao Ensino Superior, cria-se, temporariamente, uma cota para isso. Da mesma forma as mulheres na política ou em cargos de direção.

São espaços em que o preconceito é tamanho que é necessário intervir para alterar uma situação que, se deixássemos apenas a cargo da passagem do tempo, talvez demorasse séculos para mudar. E o argumento não se limita a esse ponto: além do caráter distributivo, as cotas também têm o objetivo simbólico de chamar a atenção para uma determinada questão e, na medida do possível, alterar a cultura social e política em torno dela.

Ou seja, precisamos sim ver negros, afrodescendentes e indígenas nas passarelas da SPFW.  Eles existem e não podem ser invisibilizados em nenhum espaço. Só é uma pena que o MP precise dizer, de novo, isso. E a um evento que, pela ousadia e ineditismo que costumam estar atrelados às áreas de criação e da moda, deveria ser precursor no enfrentamento ao preconceito.

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