O peixe elétrico e a ciência brasileira – professor Sergio Mascarenhas

A ciência pode ser emocionante desde que se conheça a história do seu desenrolar, seus desafios, suas descobertas às vezes curiosas e até espetaculares. Mas para isso, sobretudo para os não cientistas, como nas novelas da TV, ela tem que envolver pessoas, seres humanos de carne e osso, para que o drama e os conflitos que permeiam as descobertas tenham ressonância nos próprios leitores capazes de sentir na própria-pele as emoções. Isso transforma o leitor no mínimo em um ator coadjuvante e sensível.

Vou tentar contar a história do peixe-elétrico como num roteiro de teatro ou TV: Tudo começou quando o grande Lineu encontrou e classificou um peixe elétrico tropical, comum no Brasil e outros países tropicais. Há muitas espécies desses peixes, mas há basicamente dois tipos: os que dão uma descarga elétrica de baixa voltagem ( da ordem de 5 Volts, como encontramos em baterias de rádios-portateis, lanternas e relógios ) e outros que dão descargas de alta voltagem que podem chegar a 1000 Volts e até mais! Os de baixa voltagem não dão choque, mas os de alta voltagem podem até matar uma pessoa dentro d’água. Os de baixa voltagem usam os sinais elétricos para navegar e explorar o ambiente, semelhantemente ao que fazem os morcegos com pulsos sonoros.

Então esses peixes têm um sexto sentido além dos outros cinco (visão, audição, tato, olfato, paladar)! Através de milhares de anos de evolução a natureza e suas pressões para a melhor sobrevivência, segundo Darwin e Mendel, acabaram selecionando peixes que têm duas “eletrônicas”: uma para produzir os sinais elétricos e envia-los ao ambiente a ser monitorado, uma espécie de placa eletrogênica e outra para receber os sinais de volta “sistema receptor”. Esses dois sistemas são o “hardware”, todo montado com moléculas biológicas, água e átomos como Zinco, Magnésio e outros. Mas como ler e interpretar esses sinais?! Esta é uma verdadeira linguagem um software para calcular, organizar e traduzir em imagens e sinais nervosos (também elétricos!) e isto precisa de um “Centro de Informática” que é o cérebro do peixe.

Quem tiver fascínio por evolução pode ler um fabuloso livro “O Relojoeiro Cego” de Richard Dawkins já traduzido em português. Um dos maiores cientistas de todos os tempos, um inglês, Michael Faraday (1791-1867) por volta de 1860 em Londres, estava envolvido com baterias, motores elétricos, e queria entender como o peixe-elétrico apresentava estes fenômenos. Foi o primeiro a experimentar com um peixe elétrico de baixa tensão, provavelmente trazido do Brasil.

Não tenho espaço para contar a maravilhosa história de Faraday e passo logo para um brasileiro Carlos Chagas Filho, neuro-fisiologista, que pesquisou os outros tipos de peixe-elétrico, o de alta voltagem, chamado Poraquê, da Amazônia. Com seus estudos, ficou tão famoso, que ganhou prestígio mundial, criou o Instituto de Biofísica no Rio de Janeiro, um dos melhores Centros do País e chegou até a ser Presidente da Academia de Ciências do Vaticano, companheiro de cerca de 40 Nobelistas. Foi ele que convenceu o Papa a abrir o famoso processo de pedido de perdão da Igreja a Galileu condenado injustamente pela Inquisição!

Depois em Ribeirão Preto, um jovem e brilhante cientista, Oswaldo Baffa, um dos criadores da Física Médica na USP-RP, resolveu retomar as pesquisas do peixe elétrico de baixa voltagem e seu “sexto sentido”. Com uma sua aluna de Mestrado, Sonia usou técnicas espetaculares de física quântica e mostrou que o peixe-elétrico poderia até modular as características de seu sinal otimizando-o de acordo com o meio aquoso mais ou menos condutor de forma a otimizar o seu “sexto sentido”. Incrivelmente o peixe conhece um Teorema de circuitos elétricos que diz que a máxima transferência de potência ocorre quando a resistência interna da fonte (peixe) iguala à do circuito exterior (água).

Este resultado surpreendente deu impacto mundial ao trabalho de Baffa e Sônia. Sônia fez doutorado com a professora A. Hoffman da Medicina de RP, especialista em etologia (comportamento) e depois passou a orientar Terence T.Duarte que foi convidada a ir para um pós-doutoramento no famoso Centro Rockefeller de NY com seus estudos.

Observem como a Ciência une gerações! Isto sem fronteiras e guerras, Terence é, pois brilhante bisneta científica do Baffa filha da Sônia e neta da A.Hoffman. Como eu fui professor do Baffa posso me orgulhar de ser tataravô de Terence! Na realidade biológica ela é filha do João Garcia, diretor de “A Cidade”, daí seu amor pela Ciência… Na ilustração minha e do Alfonso o Deus Janus mira o passado com Faraday e o presente e futuro com Baffa, numa bela cadeia de gerações ligada pelo peixe elétrico. Salve a Ciência unificadora!

Sérgio Mascarenhas é professor e coordenador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), presidente Honorário SBPC e Membro Titular ABC.

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