Cortina de fumaça – A capacidade nuclear do Irã representa uma ameaça à região? – Marcia Camargos

NÃO

Até que se prove o contrário, o atual programa nuclear iraniano é pacífico e visa solucionar um grave deficit energético. Vale lembrar que Teerã ergueu em 1967 seu primeiro Centro de Pesquisas Nucleares, e planejou a construção de até 20 usinas nucleares. A orientação vinha do Stanford Institute, indicando a necessidade de 20 mil megawatts de energia atômica até 1994.

A partir da Revolução Islâmica, os Estados Unidos suspenderam o apoio, barraram a cooperação com empresas francesas e alemãs e impediram acordos com África do Sul, China e Argentina.

Já o recente relatório da Agência Internacional de Energia Atômica da ONU apontou, ali, indícios de atividade com propósitos militares, mas nem chegou perto de comprovar que os persas estejam em vias de produzir a bomba.

E na suposição de que, um dia, dominem sua tecnologia, ela funcionaria, antes, como fator de dissuasão e autodefesa, pois o Irã não tem histórico de invasão de países próximos. Sua última guerra foi desencadeada pelos Estados Unidos, que, ao apoiar Saddam Hussein contra a República Islâmica ainda vulnerável no período pós-revolução, deram aos dirigentes o pretexto para endurecer o discurso e consolidar a teocracia.

Contudo, e a despeito da negação do Holocausto por alguns dos seus governantes, o Irã abriga uma colônia judia das mais antigas do mundo, formada por 25 mil pessoas que gozam de liberdade de fé, frequentando as diversas sinagogas lotadas no shabat.

Diante disso, cabe perguntar por que Israel se opõe a um Irã nuclear. As respostas são simples. Além de evitar um contrapeso à sua própria eficiência atômica e ver crescer o poder político do Irã, o país usa a retórica como cortina de fumaça para distrair a opinião pública em relação ao que faz na Palestina.

Israel mantém em alto nível a tensão com o Irã como forma de ocultar suas constantes agressões.

Não por acaso, justamente agora, quando a Palestina pede seu ingresso na ONU, surge a ameaça de bombardear e destruir os reatores iranianos. E isso ocorre mesmo com a mídia israelense alertando que uma intervenção na terra dos aiatolás não destruiria o know-how, mas apenas estruturas físicas recuperáveis com rapidez.

Azeitar a máquina de guerra sempre ávida por novas frentes de combate também faz parte do leque das cogitações belicistas e dos interesses econômicos israelenses.

Não há de se negar que o Irã quer assumir o papel de potência regional, mas não deseja uma guerra contra Israel, e em hipótese alguma se movimentaria nesse sentido para defender os palestinos.

Ou seja, construir uma bomba é mais uma questão estratégica do que bélica. E na eventualidade de, no futuro, afinal conseguir produzir meia dúzia delas, pensará mil vezes antes de atacar um vizinho com mais de 200 ogivas nucleares livres de inspeções e das leis internacionais, já que Israel não é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear nem integra a AIEA.

Quanto à região, ela não ficará menos segura se o Irã tiver a bomba. Em tal contingência, contudo, quem sairia perdendo é a sociedade civil, que vem se rebelando para exigir democracia e liberdade de expressão. Ou seja, um Irã nuclear fortalecerá o regime que seguirá usando Israel como bode expiatório para desviar a atenção de profundos problemas internos, e vice-versa.

Enquanto isso, o ponto crucial e nevrálgico, sintomaticamente “esquecido”, é o desarmamento mundial, que passa ao largo do debate.

MARCIA CAMARGOS é historiadora com pós-doutorado pela USP. Escreveu, entre outros, “O Irã sob o Chador” (em coautoria).

Fonte:  Folha de S.Paulo, 12/11/2011

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