O Democrata do Futebol versus o Fascismo Social – Agnaldo dos Santos

Os apreciadores do outrora chamado “esporte bretão” e “ludopédio” acordaram na manhã de domingo, 4 de dezembro de 2011, com uma triste notícia: morria Sócrates, também conhecido por Doutor e Magrão, ídolo do Corinthians e da Seleção Brasileira. Quis o destino que fosse no mesmo dia da final do campeonato brasileiro vencido por seu time de coração. Inúmeras foram as homenagens de torcedores, corintianos ou não, ao craque. Mas também quis o destino que seu último suspiro ocorresse em um momento muito particular da história brasileira e mundial, e resgatar sua memória é fundamental, pois estranhos ares parecem pairar sobre as cabeças da nossa atual civilização.

Apesar de ter jogado em outros clubes, como o Botafogo de Ribeirão Preto, Santos e Flamengo, Sócrates se notabilizou por sua passagem pelo Corinthians devido à sua liderança junto à Democracia Corintiana. Era basicamente um movimento de jogadores, apoiado por alguns dirigentes do clube à época, que propunha um a espécie de “auto-gestão” do time, onde as decisões sobre diversos assuntos eram submetidas a debate e eleição. Um dos principais elementos dessa democracia era a abolição da concentração, pois defendiam que era preciso atribuir responsabilidades aos jogadores e não tutelá-los como crianças. Mas além disso, propunham também uma intervenção fora de campo: era época das mobilizações pelas Diretas-Já, e eles participavam de comícios pelo país, além de estampar mensagens na camisas e estandartes abertos antes do início das partidas.

Já naquele momento nem todos concordavam com esse protagonismo de jogadores na vida pública, e essa oposição não era apenas dos notórios cartolas autoritários. Um dos principais adversários foi Émerson Leão, então goleiro corintiano mas famoso pelas passagens pelo Palmeiras e Seleção Brasileira. Ele achava aquilo tudo uma “baderna”, não só a liberdade aos jogadores mas principalmente a sua politização. Acabou deixando o clube no auge da Democracia Corintiana. Já na década de 1990, e famoso por seu conservadorismo, chegou a afirmar que a “Aids era uma coisa boa para proteger a família”…

Voltando aos nosso dias, alguns eventos significativos antecederam o falecimento do Magrão, e acabaram se conectando de forma muito expressiva. O ex-presidente Lula comunicou à sociedade a descoberta de um tumor e o início de um tratamento que deve levar alguns meses ou mesmo anos. Pipocaram na rede de computadores inúmeras manifestações preconceituosas, em particular sugerindo que ele se tratasse no SUS, uma vez que reina no senso comum que a rede  pública é de má qualidade no seu conjunto, ou seja, desejavam o pior destino possível ao carismático líder petista. Pouco tempo depois ocorreram os eventos da invasão da polícia na USP, a pedido de seu autoritário reitor, para coibir as manifestações estudantis contra a presença da polícia no campus.

Novamente, diversas manifestações – diga-se, covardemente anônimas – defendiam o comportamento truculento da polícia contra os “maconheiros” e “mimados” alunos da universidade.

São posições plenamente sincronizadas com o espírito conservador que dominou boa parte da campanha presidencial de 2010, capitaneada pelo candidato neoconservador José Serra e que chegou a pregar contra o aborto, contra a união civil etc. No dia da morte de Sócrates, lá vieram essas mesmas vozes: deveriam sepultar o craque em Cuba, “já que gostava tanto de Fidel”, ou “era cachaceiro mesmo, por isso morreu” e que assim “serviu de exemplo aos jovens”. Podemos questionar: qual exemplo os jovens não deveriam seguir?

Filho de pais migrantes do Ceará, nascido na cidade de Belém do Pará e crescido em Ribeirão Preto, seguiu o exemplo de seu pai, autodidata que ingressara no serviço público, e dividia o prazer da bola com os livros. Aluno de medicina da USP, era comum ir a uma partida após o plantão feito de madrugada no período de residência médica. Seus irmãos também foram instruídos a investir na educação, como o pai autodidata e o irmão famoso. Um deles, Raí, também craque e ídolo do São Paulo e da Seleção, cursou por alguns anos história e teve uma passagem brilhante pelo time francês Paris Saint-Germain.

Comentou em uma entrevista anos atrás, com muita naturalidade, que sua filha estudava na França com o filho de sua faxineira, e acertadamente creditava isso à estrutura social-democrata desenvolvida naquele país durante o século passado. O próprio Sócrates, também se referindo aos filhos em entrevista, disse que um deles o abordou sobre a possibilidade de ir morar sozinho, no que teve apoio do pai. Mas, ato seguinte, pediu dinheiro para realizar seu sonho. Escutou do pai que a liberdade não pode ser dada, ela deve ser conquistada.

O médico-jogador nunca escondeu de ninguém que era um hedonista no bom sentido do termo, e que suas complicações hepáticas eram fruto de sua vida boêmia. Não achava que as pessoas deviam fazer isso por mera imitação das celebridades, mas conscientes de que a vida deve ser bem vivida por todos e todas. Sabia que havia chegado ao limite e tentou, nos últimos anos, reverter seu quadro clínico. As vozes moralistas – de inconfundível hipocrisia – não perderam a oportunidade de desqualificar seu estilo de vida e suas posições políticas, notoriamente de esquerda.

Em um época onde o moralismo religioso e laico grassam, onde o individualismo e o consumismo são amplamente disseminados pelos diversos aparelhos ideológicos, é compreensível que os exemplos do Magrão incomodem mesmo. Principalmente o de que só faz sentido curtir a vida se for em sintonia com o bem estar coletivo, lutando coletivamente para que todos possam ter uma vida de plenitude.

Agnaldo dos Santos, sociólogo, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências – Unesp Marília e membro do Núcleo de Estudos d’ O Capital (SP). 5/12/2011.


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Um pensamento sobre “O Democrata do Futebol versus o Fascismo Social – Agnaldo dos Santos

  1. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira!
    Este nome ficará para sempre na minha memória. Quando eu era criança escutava meu pai falando sobre às fantásticas histórias da democracia coritnhiana e como aquele barbudo, meio desengonçado, magrelo ou melhor magrão foi o líder de um time que representa o verdadeiro espirito do futebol, coisa que infleizmente não existe mais, assim como os espiritos critíco e de coletividade que foram abandonados pelaa sociedade em tempos de individualismos sem fim.

    Anos 80! Queria ter sido jovem nesta época!

    Abraços Alexandre, passo pelo seu blog todos os dias.

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