Ibn Battuta: o maior viajante da Idade Média – por Yves D. Papin

Artigo publicado originalmente no site da revista História Viva. Essa revista junto com Scientific American Brasil, publicadas pela Duetto Editorial, são algumas das melhores publicações disponíveis nas bancas.

No século XIV esse peregrino marroquino deixou Marco Polo para trás ao percorrer 125 mil km pelas estradas da África, Europa e Ásia. Suas memórias revelam um mundo pouco conhecido pela historiografia ocidental

O peregrino marroquino durante sua passagem pelo Egito. A partir do norte da África, ele viajou o equivalente a três vezes a volta ao mundo

Ilustração de Ibn Battuta.

Abu Abd Allah Muhammad ibn Muhammad ibn Ibrahim al-Luwati at-Tanyi, ou simplesmente Ibn Battuta, nasceu em Tânger em 24 de fevereiro de 1304. Crente fervoroso, aos 22 anos decidiu realizar a peregrinação ritual a Meca que todo muçulmano deve fazer. Aquela seria a primeira de uma série de viagens que o levariam a percorrer aproximadamente 125 mil km durante os 26 anos seguintes.

Ele partiu sozinho em 14 de junho de 1325, sem companheiro nem caravana. Começou a viagem cruzando a atual Argélia, onde visi-tou as cidades de Tremecém, Argel, Bougie, Constantina e Annaba. Ao chegar à atual Tunísia, passou vários dias na cidade de Túnis antes de partir com uma caravana para Sousse e Sfax, onde se casou, se divorciou e voltou a se casar em um período de poucos dias.

Impressionado com os esplendores de Alexandria, no Egito, aonde chegou vindo da Líbia, ele nos deixou uma descrição do célebre farol (em ruínas) antes de visitar as cidades do delta do Nilo. A vista do Cairo o encheu de admiração, tanto pelo caráter sagrado quanto pela animação da cidade. Ele aproveitou para visitar as pirâmides, contentando-se, porém, em descrevê-las rapidamente.

Pouco inclinado a tomar o caminho mais curto, Ibn Battuta seguiu para a Síria passando por Gaza e Hebron (na atual Palestina) antes de chegar a Jerusalém. Na sequência tomou o rumo de Damasco, “o paraíso do Oriente”, passando no caminho por Nablus, na atual Palestina; Acre e Tiberíades, no atual Israel; Tiro, Sidon, Beirute e Trípoli, no atual Líbano; Lataquia, Homs e Alepo, na atual Síria; e Antióquia, na atual Turquia. Ao chegar a Damasco, na Síria, ficou encantado com a atmosfera da cidade, que tinha “a mais sublime mesquita do mundo”.

Ibn Battuta ficou ali por algum tempo até se juntar a uma caravana que se dirigia a Meca. Finalmente, em outubro de 1326, ele avistou Medina, cidade sagrada para o Islã onde se encontra o mausoléu de Maomé.

Entre Medina e Meca, como todo bom peregrino, vestiu a roupa “penitencial”, sem costuras, e certa manhã chegou ao fim de sua jornada. Maravilhado com Meca, ele nos deixou descrições entusiasmadas e intermináveis da cidade. Tendo cumprido sua peregrinação, deixou Meca na companhia de uma caravana que se dirigia ao Iraque, pois ele começava a admitir que “viajar é viver duas vezes”.

A caravana seguiu para Bagdá, mas Ibn Battuta tomou o rumo de Basra juntamente com alguns árabes. Ele não resistiu à tentação de desviar o caminho para visitar o túmulo de um santo diante do qual eram realizadas cerimônias curiosas: os fiéis dançavam em torno de uma grande fogueira e pouco a pouco penetravam em seu interior, rolando ou colocando tições na boca. Outros pegavam uma serpente e cortavam-lhe a cabeça com os dentes.

De Basra ele embarcou em um navio para a pequena cidade de Obolla, no golfo Pérsico, e em seguida visitou Isfahan e Chiraz (no atual Irã), aonde chegou em agosto de 1327. De volta à estrada, tomou o rumo de Bagdá, onde se encantou com os banhos públicos.

Depois da cidade dos califas, na companhia da escolta do sultão, o viajante chegou a Tabriz e em seguida partiu para Mossul. No caminho encontrou um poço de petróleo da época: uma vasta lagoa negra que havia jorrado subitamente do solo e cujas bordas estavam cobertas de breu, que era recolhido para ser usado como revestimento. Tendo terminado sua pequena excursão, ele conseguiu um lugar numa caravana que retornava a Meca, onde passaria os três anos seguintes, até 1330.

A COSTA DA ÁFRICA

Esse período de sedentarismo em Meca despertou novamente seu desejo de viajar, e ele partiu para o Iêmen e Áden, e depois seguiu por mar para a África oriental, chegando a Zeila (na atual Somália), grande cidade com um cheiro desagradável devido aos peixes e ao sangue de camelo. Ibn Battuta preferiu passar a noite em seu barco, ainda que o mar estivesse muito agitado, a dormir nessa cidade pouco limpa e após 15 dias de navegação de-sembarcou em Mogadíscio, cidade de ricos e renomados comerciantes exportadores de tecidos.

Na atual capital da Somália ele foi hóspede do sultão e nos informou sobre o menu do palácio, que considerou um tanto mesquinho: arroz cozido com manteiga recoberto de frango, carne bovina, peixe e legumes, bananas cozidas no leite e decoradas com limões no açúcar, pimenta verde e mangas embebidas em vinagre. Como os habitantes de Mogadíscio tinham um grande apetite, com esse regime, “eles são de uma extrema corpulência e de carnes excessivas”, e para dissimular essa obesidade enrolavam apenas um pano nos quadris.

Para se recuperar das festividades Ibn Battuta visitou a ilha de Mombaça (atual capital do Quênia), cujos habitantes eram “piedosos, castos e virtuosos”, e regressou ao mar para se dirigir a Quíloa (na atual Tanzânia), cidade inteiramente construída em madeira, de tetos de junco. Na região o comércio do marfim desempenhava um papel importante, a ponto de esse produto suplantar o ouro. No final de 1331 Ibn Battuta retornou à Arábia passando pela cidade de Zafar (no atual Iêmen).

NA CORTE DE BIZÂNCIO

Sua fé o levou a realizar uma terceira peregrinação a Meca. Depois disso, Ibn Battuta decidiu visitar a Índia passando pela Turquia seljúcida, por Constantinopla e pelo Turquestão. Em 1332-1333 ele percorreu a Anatólia (parte asiática da atual Turquia), onde visitou Éfeso, Pérgamo, Bursa e Konya, a cidade santa dos dervixes rodopiantes sufis (ordem mística islâmica surgida no século XIII).

Em março de 1334 ele chegou a Sinope, de onde embarcou num navio bizantino que cruzou o mar Negro e o levou a Caffa, na região da Crimeia (parte da atual Ucrânia). Esse bom muçulmano, que conhecia apenas os chamados dos muezins ficou muito assustado ao ouvir pela primeira vez os sinos cristãos. Ele ficou muito espantado com certos costumes locais, como o consumo da carne de cavalo, o respeito às mulheres e o uso do vinho por algumas seitas.
Sempre disposto a fazer turismo (no melhor sentido do termo), Ibn Battuta acompanhou uma princesa bizantina do séquito do sultão que queria dar à luz em Constantinopla. Ele chegou à cidade em agosto de 1334, com a escolta de 500 cavaleiros, 400 carruagens, 200 cavalos, 300 bois e 200 camelos. Foi recebido pelo imperador bizantino, que manifestou muito interesse por ele, interrogando-o longamente sobre as cidades que havia visitado. O viajante ganhou como presente um traje de honra, um cavalo e um guarda-sol, o que lhe permitiu passear pela capital sendo anunciado por trombetas, clarins e tambores.

Em 23 de setembro de 1334 Ibn Battuta deixou Constantinopla e juntou-se em novembro a seus companheiros em Astracã, na Rússia, onde reinava um frio “siberiano”. Para se aquecer teve de cobrir-se com peles e vestir três peliças, duas ceroulas (uma delas dupla) e botinas de lã. Quando lavava o rosto, a água transformava sua barba em peque-nos cubos de gelo. Sua caravana caminhou três dias sobre o rio Volga congelado antes de parar em Saray (no atual Azerbaijão), uma das etapas na travessia da inóspita Khwarezmia, região desértica da Ásia central que atualmente pertence parte ao Uzbequistão, parte ao Turcomenistão. Para cruzá-la eram necessários 40 dias de viagem em lombo de camelo, único animal que conseguia resistir à falta de água e pastagem.

A visão de Samarcanda (no atual Uzbequistão), no entanto, o fez esquecer as dificuldades: Ibn Battuta descreveu a antiga capital do império de Tamerlão, um dos sucessores de Gêngis Khan, como “uma das mais belas e mais magníficas cidades do mundo”. Na época já era intensa a peregrinação ao túmulo do soberano mongol.

CAMINHO DA ÍNDIA  

A  caravana se pôs então em marcha na direção do Hindu Kush, a cordilheira que corta os atuais Afeganistão e Paquistão. A neve espessa os obrigou a colocar peças de feltro sobre as patas dos camelos para que eles não afundassem. A caravana, que reunia alguns camelos e 4 mil cavalos, foi atacada pelos afegãos entre Cabul e Kermash, sem sofrer grandes danos. Em seguida eles penetraram no deserto para 15 dias de marcha. Tendo chegado ao rio Sind em meados de 1335, os homens repousaram, depois desceram o rio. Finalmente haviam chegado à Índia.

O viajante dirigiu-se a Déli, a capital, cidade magnífica, com suas muralhas, mesquitas e recepções. Ali, Ibn Battuta perdeu uma de suas filhas, de menos de 1 ano de idade, que foi enterrada em uma cerimônia grandiosa. Após uma longa estada ele deixou a capital e se pôs a serviço de um santo homem, a fim de expiar certas faltas e escapar à vingança do sultão; o viajante permaneceu cinco meses com ele, compartilhando suas devoções, mas não seus jejuns excessivos.Tendo recuperado as boas graças do governante, ele recebeu então a missão oficial de ir à China.

Designado para liderar a embai-xada do sultão de Déli ao Oriente, Ibn Battuta recebeu do soberano 100 cavalos selados, 100 escravos homens, 100 jovens mulheres e peças de ricos tecidos para oferecer ao imperador da China. A comitiva seguiu caminho em 22 de julho de 1342. Um ataque dispersou a caravana, e o viajante foi feito prisioneiro, mas conseguiu fugir.

Restabelecido, foi acolhido por um sultão local e assistiu a levitações e outras demonstrações espantosas dos faquires, que o deixaram do-ente. Na costa do Malabar (no sudoeste da India), ele passou por Goa e Calicute, dois dos grandes portos do universo em sua opinião. Em Calicute o viajante devia embarcar num navio chinês, porém marinheiros inescrupulosos se apoderaram de seus bens, e um tufão desastroso destruiu suas notas de viagem.

Em Honavar, Ibn Battuta, ao lado do sultão, participou de uma guerra santa em nome do Islã. Instalado nas ilhas Maldivas, terra muçulmana des-de o século XIII, o marroquino ficou entusiasmado com os coqueiros e seus frutos, com os quais se fazia de tudo. Estimulado pelas virtudes afrodisíacas do coco, Ibn Battuta, que tinha quatro mulheres legítimas sem contar as concubinas, visitou cada uma delas noite após noite, durante um ano e meio. Apreciando o lugar, ele desposou a filha do vizir e tornou-se cadi (magistrado muçulmano nomeado pelo califa) das ilhas, desempenhando com consciência suas funções.

O novo cadi aproveitou seu tempo de lazer para viajar ao Ceilão (atual Sri Lanka) e à costa de Coromandel (no sudeste da Índia), depois retornou ao Malabar e às Maldivas antes de se dirigir à região de Bengala, no nordeste da Índia. De lá, chegou às ilhas de Sumatra e Java (ambas na atual Indonésia) antes de finalmente desembarcar na China para cumprir sua missão. Como seu predecessor Marco Polo, ele ficou impressionado com as notas bancárias em papel, com as qualidades artísticas dos chineses e com a polícia do país. Ele visitou Quanzhou, Cantão, Hang Tcheou Fou e Pequim. Na capital, assistiu aos grandiosos funerais de um Khan (soberano mongol).

De volta para casa Ibn Battuta embarcou de volta para o Ocidente em 1347. Ele estava no Oriente Médio quando começou a se alastrar a terrível “Peste Negra” que devastaria a Europa. Realizou em 1348 uma nova peregrinação a Meca. Regressou sem pressa, de barco, passando pela ilha da Sardenha (atualmente parte da Itália), e chegou a Fez, no Marrocos, em 8 de novembro de 1349. Logo em seguida visitou a Andaluzia, então reino de Granada, única região ainda muçulmana na Espanha naquele momento da “reconquista”.

Em fevereiro de 1352, Ibn Battuta decidiu visitar o Sudão (nome genérico dado na época à África subsaariana). Ele deixou o Marrocos passando por Marrakesh, Salé, Fez e Sijilmassa, onde uma caravana de mercadores o acolheu. Depois de 25 dias de marcha eles chegaram a Tegaza, importante centro saariano de produção de sal, localizado no que hoje é o norte do Mali. As casas e mesquitas da cidade eram feitas de sal-gema, e os tetos, de peles de camelo. Ibn Battuta não apreciou muito o lugar, devido à água salobra e às moscas demasiado abundantes.

O viajante marroquino chegou então  à capital do Império do Mali, o mais importante reino da África ocidental na época, mas a cidade também não o seduziu. Na sequência passou por Timbuktu – principal centro comercial no extremo sul do deserto do Saara –, Gao e, finalmente, pela mina de sal de Takadda.

Uma ordem do sultão determi-nou seu regresso a Fez, e Ibn Battuta seguiu viagem com uma caravana imensa, que contava com 600 jovens escravas. A travessia do maciço de  Hoggar, cadeia de montanhas no sul da atual Argélia, foi penosa: os tuare-gues pareciam aves de rapina.

Ele chegou a Fez em dezembro de 1353. Ibn Battuta contratou então os serviços do escriba granadino Ibn Juzay, para quem ditou seus relatos de viagem ao longo de três anos. O fato de ter registrado suas memórias tardiamente explica a dificuldade parcial para seguir o itinerário do marroquino, pois algumas vezes suas recordações se misturam, já que parte de suas anotações de viagem foi perdida ou roubada. Mas no conjunto ninguém contesta a veracidade de suas afirmações e o interesse de suas observações.

Aos que lhe perguntavam o que mais o havia impressionado, ele respondia: “O Ocidente (quer dizer, o Marrocos) é o mais belo país do mundo”.

 

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