A orfandade de “GEN – Pés descalços”: minha lembrança de Keiji Nakazawa

gen

Não tenho certeza. Outubro? Novembro? Foi na segunda metade de 1999.

Visitei a Conrad Editora lá na sua sede na rua Larcerda Franco na Aclimação. A sede da editora era curiosa. Parecia um bunker futurista.

Fui lá visitar o editor Rogério de Campos, que havia sido apresentado por um grande amigo em comum, o Edgar Suzuki.

Conversamos por algum tempo. Vi as provas do “Assalto à Cultura”, obra do Stewart Home em revisão. Conversamos “Scum Manifesto” da Valeire Solanas e “Dreamland” do Phil Paton entre outros projetos.

Já havia lançado o “Comic Book – O novo quadrinho norte americano”. E lançado o GEN – Pés descalços. Lembro das lagrimas no rosto de GEN, na sua capa vermelha.

A capa era forte. Mas não expressava nem 1% do conteúdo.

Li o livro ao final da noite, depois da faculdade ou de alguma reunião. Lembro-me que li muito rapidamente. Ainda dentro do ônibus estava aos prantos. Impactado. Um chute no saco. Um soco no estômago. Senti minhas entranhas estavam sendo retorcidas pelo simples traço de Keiji. Mas a realidade da guerra, a vida real com suas contradições.

O livro é artilharia pesada contra todas as guerras e contra a intolerável indústria da guerra atômica. É também uma demonstração da luta pela sobrevivência. É um relato do criminoso Império japonês contra seu povo e da carnificina estadunidense contra o povo japonês.

Ao terminar de ler, sem fôlego e chorando, fiquei tão impactado que liguei ao Rogério de Campos para agradecer por ter editado o livro, enquanto ainda soluça sobre o efeito “Keiji Nakazawa”.

Algum tempo depois fui trabalhar na Conrad para cuidar do desenvolvimento de internet lá. Creio que ler GEN tenha sido uma das principais razões. Uma editora que publicava um livro como aquele era um lugar que eu não apenas gostaria de trabalhar, era um lugar que eu tinha de trabalhar.

Lá acompanhei o lançamento dos outro três volumes da edição internacional de GEN, produzidas sob direção do Rogério de Campos conduzida pela equipe comandada pela Priscila Ursúla dos Santos, então editora lá na Conrad.

Passando anos na editora e já fazendo parte do “comitê de desenvolvimento de produtos”, CDP para a galera interna, depois da bem sucedida edição de “Buda” de Osamu Tezuka foi levantada a proposta de uma nova edição de GEN. Agarrei essa proposta e combati. Tive medo, pois para viabilizar uma nova edição de GEN, seria esgotar a edição já existente, baseada na versão ocidentalizada e reduzida da obra. O original tinha 10 volumes. Com a ajuda da responsável pela biblioteca da Conrad, Esther Sumi comparamos página a página a edição japonesa e a edição já publicada pela Conrad. Lembro que a edição publicada no Brasil era algo como 25% da edição original. Anos depois, após ter saído da Conrad, fiquei extremamente feliz que a equipe agora da Conrad-Ibep, continuou o trabalho e passou a editar a edição japonesa. Hoje já está no quinto volume dos 10 previstos.

“GEN – Pés descalços” é um livro que deveria ser editado pelo Ministério da Educação e distribuído a cada jovem alfabetizado nas escolas de todo o Brasil. Lembro-me de minha mãe fazendo campanha para que tios lessem o livro. Meus exemplares ficaram surrados e desgastados no esforço continuo de cumprir seu dever de serem lidos. Isso me deixa feliz, hoje quando paro para escrever sobre Keiji.

A morte de Keiji Nakazawa é uma perda. Ele não apenas soube fazer de sua epopeia pessoal uma narrativa sem igual. Ele ajudou a fundar o grande movimento da publicação dos quadrinhos japoneses no Brasil. Se é verdade que a Conrad já era conhecida pelo seu trabalho jornalistico com a revista Herói cobrindo principalmente Cavaleiros do Zodíaco, o primeiro mangá da Conrad foi GEN – Pés descalços (ainda que na sua versão ocidentalizada). E sem dúvida isso abriu o caminho para a chegada de Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e tantos outros títulos.

O que me surpreende é que uma busca por Keiji Nakazawa no Google News retornou apenas 2 links de notícias. Sem dúvida um péssimo sinal da situação do jornalismo cultural. Mesmo a notícia produzida pelo portal G1 (da Globo) é apenas tradução de uma reportagem da agência EFE. Uma pena. Sem dúvida Keiji é um gigante da narrativa gráfica que merece ser lembrado e relembrado.

ALEXANDRE LINARES é professor, editor, militante do PT e torcedor do Juventus.

PS: com o Rogério de Campos lançando a Editora Veneta  tendo como um dos seus primeiros livros a premiada história em quadrinho “A Arte de Voar” do Kin sobre a Guerra Civil Espanhola, torço para que essa nova casa editorial seja o habitat de uma longa lista de obras no espírito de “Gen – Pés descalços”

PS2: Não poderia deixar de mencionar: quem me entregou a sacola com o livro na Conrad, foi minha querida amiga Pati Pombo com aquele lido sorriso que só ela tem.

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