Um fantasma ronda a Europa – Pedro Juan Gutiérrez

Excelente artigo publicado no Caderno Aliás do jornal O Estado de S.Paulo. Um testemunho da crise na Europa. Muito útil para quem está se preparando para o ENEM.

Um fantasma ronda a Europa – Pedro Juan Gutiérrez

À primeira vista não observamos nada. Caminhamos pelo centro de Madri e tudo parece bem. Milhares de pessoas comprando nas lojas, bares e restaurantes lotados, alguns mendigos pedindo esmola, a agitação normal costumeira.

É preciso ir mais fundo para entender o que está de fato ocorrendo. O Ministério da Economia da Espanha acaba de comunicar que “o primeiro grande ano de crescimento desde o início da crise, em 2007, será 2019 “. Aí então o PIB crescerá acima dos 3%. Somente a partir de 2017 é que o desemprego começará a diminuir. A taxa de pessoas desempregadas neste momento está acima dos 27%, ou seja, são mais de 5 milhões de espanhóis sem trabalho.

Pessoalmente, não acredito nesses prognósticos. Os políticos têm de tranquilizar a população. Precisam falar, dizer alguma coisa, aparecer na mídia. Aparentar que está tudo sob controle. Dar esperanças de que a situação vá melhorar, embora daqui a seis anos. Mas, como ocorre quase sempre na vida, o mais importante é aquilo que não é dito. O decisivo é o que ocultamos. Nosso lado sombrio.

As previsões sérias são catastróficas. Por exemplo, a Fundação Friedrich Ebert, da Alemanha, criada em 1925 e considerada um dos mais influentes centros alemães de estudo, traçou o caminho mais provável para a Europa até 2020. O estudo baseou-se em debates com especialistas de 14 países europeus. A primeira conclusão é que os políticos e economistas estão se movendo às cegas, procurando manejar uma crise de proporções gigantescas que mal conseguem compreender.

Um dos especialistas, Björn Hacker, declarou há alguns dias a uma revista espanhola que “a zona do euro está diante do maior desafio de sua história e tudo vai depender das decisões que os políticos adotarem hoje. Mas ninguém tem um plano”. E acrescentou que “um final feliz é pouco provável. A desintegração é uma possibilidade. A outra é que a União Europeia se torne um clube seleto formado pela Alemanha e alguns poucos países do norte”.

Cada vez mais os analistas se manifestam no mesmo sentido. E falam francamente. A União Europeia foi criada em 1º de novembro de 1993. Há quase 20 anos. Naquele momento era necessário unir as forças para, supostamente, fazer frente aos dois grandes polos econômicos: Estados Unidos e Ásia. Lembremos que a social-democracia ficou bastante enfraquecida depois de cumprir seu papel nos depauperados anos após a guerra. Em 1993, os europeus puseram definitivamente de lado os conceitos altruístas e racionais da social-democracia e se lançaram na corrida descarada do capitalismo selvagem.

Seu desejo era competir ferozmente com os americanos e asiáticos. Não ficar para trás. Desejavam conservar a todo custo o Estado do bem-estar social.

Hoje, 20 anos depois, observam os resultados daquela ideia utópica: é impossível alcançar uma unidade verdadeira, eficaz, competitiva, com uma organização tão heterogênea. Os indicadores econômicos de Portugal, Grécia, Irlanda e Espanha, até mesmo da Itália, estão muito distantes dos registrados pela Alemanha, França e países escandinavos.

Um caso bastante conhecido é o da Espanha. O país baseou seu desenvolvimento econômico na construção, no turismo e um pouco na agricultura. Claro, chegou um momento em que a construção ficou paralisada porque todo o litoral já estava coberto de cimento. Há zonas turísticas, como o sul da ilha de Tenerife, nas Canárias, em que o excesso de hotéis e prédios de apartamentos para turismo é monstruoso. Há hotéis e apartamentos agarrados, como pássaros brancos surrealistas, aos rochedos da costa. Onde havia um metro livre, enfiaram cimento.

É o que chamamos hoje de “bolha imobiliária”. E claro, os políticos que estão no poder culpam seus antecessores – José Luis Rodríguez Zapatero e o Partido Socialista – por não terem impedido a tempo aquela corrida absurda.

O que não querem admitir é que o verdadeiro erro foi entrar na União Europeia e se submeter à ditadura de uma moeda única. Havia vantagens. Supostamente, os países mais atrasados receberiam uma ajuda para alcançar rapidamente o mesmo nível dos mais avançados. Dessa maneira, em poucos anos seria criada uma organização poderosa e sólida, capaz de enfrentar a ameaça representada por Estados Unidos e Ásia.

A realidade estamos vendo agora. Depois de 20 anos de integração, os países mais pobres da UE enfrentam uma crise que se torna cada vez mais aguda e se expressa em violentos protestos nas ruas. As pessoas estão despertando da sonolência gerada pelo Estado do bem-estar social. Uma sonolência hipnótica que manteve a sociedade adormecida. Hoje a população grita de novo nas ruas, exigindo que cessem os cortes na educação, saúde e habitação. Que não se permita que os bancos continuem jogando as pessoas na rua para se apossar de casas vazias que não têm para quem vender. Os manifestantes exigem que os ricos e poderosos paguem pela crise. Não o povo.

Até juízes e policiais têm feito greve. O que é o cúmulo, porque aparentemente são as instituições mais sólidas nas quais o governo se escora para ser forte e exercer seu poder. Há alguns dias policiais espanhóis se negaram rotundamente a continuar desalojando pessoas expulsas de suas casas pelos bancos por não terem pago suas hipotecas.

Em outros lugares está ainda mais evidente que a Europa atravessa o pior momento da sua história depois de 1945. É o caso de Lisboa. No centro da cidade há dezenas de edifícios antigos fechados e cercados com tapumes, aguardando um investidor.

Diante da Secretaria de Relações Exteriores, em Madri, um grupo de cubanos realiza um protesto permanente há mais de 400 dias. São alguns dos presos políticos que o governo Zapatero trouxe para a Espanha em julho de 2010, depois de muitas gestões. Um total de 115 presos políticos, mais 650 familiares. Durante dois anos eles receberam alguma ajuda. Mas naquele momento a crise já se agravava e era muito difícil conseguir trabalho. Assim, alguns conseguiram ajuda de familiares na Espanha ou em Miami. Mas dezenas não encontraram trabalho e vivem da ajuda de organizações beneficentes nas ruas de Madri. Uma imagem desconcertante. E deprimente. Conversei com alguns deles, que me disseram: “Primeiro foram muitas promessas e agora nos deixam jogados na rua como se fôssemos mendigos. Se soubesse que este país estava em crise, teria ficado em Cuba”. O governo de Mariano Rajoy desligou-se por completo do caso e olha para outro lado. É mais uma situação provocada pela grave crise que parece não amainar. Pelo contrário.

Próximo do local onde estão os cubanos, a dois passos da Plaza Mayor e da Porta do Sol, no centro de Madri, todos os dias há manifestações. As pessoas protestam, tentam se defender como podem. Os bancos e os políticos são seu alvo.

Creio que esse é o lado positivo de tudo isso: a população está despertando, exigindo, gritando nas ruas. Pelo menos está exercendo seu direito de espernear. E a partir daí poderá surgir um novo modelo de pensamento sobre a distribuição da riqueza. Porque não existe nada novo em perspectiva. É o mesmo problema de sempre em todos os países e em todas as épocas: a distribuição desigual da riqueza.

No momento a crise é sentida de um modo brutal pelos mais pobres. Os que vivem de expedientes, com um salário ínfimo, que perderam o emprego e não encontram outro. Ou que perderam a casa e vivem apertados em casa de algum parente e não sabem muito bem o que fazer. Mas pouco a pouco essa situação se amplia para a classe média e é desalentador.

E na Espanha a cereja do bolo é colocada pelo governo de direita do Partido Popular, com Rajoy na presidência. Com enorme descaramento, Rajoy insiste que tudo está bem e nada vem ocorrendo. Incrível! Esse senhor repete a mesma coisa a cada dois ou três dias. “A Espanha se recupera e estamos muito bem.” Parece que fala para crianças inocentes. Além disso, o governo tem revogado leis recentes promulgadas pelo anterior governo do Partido Socialista Espanhol. Agora pretendem revogar a lei sobre o casamento gay e sobre o direito da mulher ao aborto, criando mais e mais inimigos entre a população.

E há alguns meses precisaram cercar as Cortes, o edifício do Parlamento espanhol, e aumentar substancialmente as medidas de segurança em toda a área que fica a alguns passos do Prado e de outros museus, ou seja um lugar de passagem constante de turistas e pedestres.

De acordo com a fundação alemã Friedrich Ebert, “em 2020 vários países europeus continuarão mergulhados na recessão e terão problemas crônicos de crédito. Desmantelaram parcialmente o Estado do bem-estar; o desemprego alcança níveis jamais vistos, a pobreza aumenta, os fluxos migratórios são cada vez mais fortes, etc.”. E a fundação insiste ser bastante improvável que a crise tenha um final feliz. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

PEDRO JUAN GUTIÉRREZ, ESCRITOR CUBANO, É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE TRILOGIA SUJA DE HAVANA (ALFAGUARA BRASIL) E ANIMAL TROPICAL (COMPANHIA DAS LETRAS)

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