Sexo e namoro para quê? – JAIRO BOUER

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Uma em cada três pessoas com menos de 30 anos ainda não fez sexo no Japão de hoje. Os jovens japoneses enfrentam o que especialistas chamam de “síndrome do celibato”. Uma matéria publicada nesta semana no jornal britânico The Guardian mostra que o fenômeno pode impactar profundamente a estrutura da população nas próximas décadas.

Os 126 milhões de habitantes atuais podem encolher em um terço até 2060. A taxa de crescimento populacional do país, que já é uma das mais baixas do mundo, encolheu na última década, e 2012 foi o ano em que menos bebês nasceram na história do Japão. A população mais velha cresce, e os demógrafos temem o impacto social dessa situação.

Várias pesquisas parecem reforçar a sensação de que tanto sexo quanto relacionamento não são prioridade na vida dos jovens japoneses. Ainda de acordo com o The Guardian, em 2011, 61% dos homens solteiros e 49% das mulheres solteiras de 18 a 34 anos não estavam namorando. Uma pesquisa do Centro de Planejamento Familiar do Japão mostrou que 45% das mulheres e 25% dos homens de 18 a 24 anos não estavam interessados em sexo.

No Brasil, pelo menos em relação a sexo e namoro, a situação nesse momento parece diametralmente oposta. Metade dos garotos e um terço das garotas já fizeram sexo antes dos 15 anos. Ao sair do ensino médio, a maioria dos jovens já iniciou sua vida sexual. Apesar de namoros rápidos, eles são bastante comuns, e o desejo de estar com alguém (ficar, namorar ou fazer sexo) é uma preocupação frequente. Há uma pressão relatada por muitos jovens para que se inicie a vida sexual cedo.

Os especialistas acreditam que a difícil situação econômica do país asiático nos últimos 20 anos, o modelo tradicional da família japonesa que ainda é cobrado dos mais jovens (em que o homem deve comandar e sustentar a casa), as transformações sociais importantes que vêm ocorrendo (como o novo papel da mulher no mercado de trabalho) e até as recentes catástrofes naturais (tsunami, terremoto, vazamento nuclear) são alguns dos fatores que poderiam explicar o desinteresse do japonês por amor e sexo.

Mulheres mais independentes, a dificuldade feminina de conciliar carreira e família e, ao mesmo tempo, a impossibilidade para um casal de sustentar um filho se os dois não trabalharem incansavelmente são fenômenos que parecem ter criado um paradoxo no modelo dos relacionamentos mais tradicionais naquele país. Um reflexo mais imediato dessa crise social seria um certo desinteresse pelo outro.

Outra pesquisa recente mostra que 90% das jovens japonesas acreditam que ficar solteira é melhor do que casar. Não casar – o que antes seria considerado um grande fracasso pessoal – parece estar se tornando uma opção cada vez mais atraente. O Instituto de População do Japão estima que 25% das mulheres que hoje estão na faixa dos 20 anos não devem se casar e que até 40% delas não devem ter filhos.

De volta ao Brasil, crises econômicas, transformações sociais rápidas, flexibilidade dos novos modelos familiares e maiores exigência e competição no mercado de trabalho também têm provocado mudanças, como pessoas adiando o casamento, mais gente solteira e filhos chegando em menor número e mais tarde. Esse fenômeno também tem sido visto nos EUA, Europa e nas grandes cidades asiáticas.

O que talvez marque uma grande diferença entre Brasil e Japão seja de fato a questão cultural ligada à sexualidade. Enquanto por lá o sexo e o romance não parecem ocupar grande tempo da vida do jovem, que está mais preocupado com estudo, trabalho e com grande foco em tecnologias interativas (que até substituem o olho no olho), por aqui as transformações sociais parecem ter efeito contrário: apesar de casamentos e filhos estarem mais longe no horizonte, os jovens fazem mais sexo sem compromisso, ou até estão em busca de um ideal mais romântico de relacionamento, mas sem tantas amarras. Sexo e namoro seguem firmes na pauta do dia.

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA e escreve no O Estado de S.Paulo.

Artigo publicado dia 27 de outubro de 2013

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