Quem matou Kaique? A homofobia!

A morte de Kaique Augusto Batista dos Santos em São Paulo não é uma tragédia. Tragédias lembram acidentes. A morte deste jovem, de apenas 16 anos, negro e homossexual não é um acidente. É “morte matada”. É assassinato. E os culpados são conhecidos.

O jovem teve todos os dentes arrancados pela raiz, foi desfigurado, sua cabeça estava coberta de hematomas e teve sua perna empalado por uma barra de ferro. Foi barbaramente torturado.

Segundo a Folha de S.Paulo: “O boletim de ocorrência foi registrado como SUICÍDIO no 2º DP (Bom Retiro), mas ainda não há, segundo a Polícia Civil, evidências do que aconteceu” (destaque meu).

Suicídio? Não foi suicídio. Até meu filho de 3 anos é capaz de perceber não há nenhum indício de suicídio. O registro no Boletim de Ocorrência  é parte deste crime, a decisão de não ir atrás dos responsáveis. De jogar para baixo do tapete.

O ódio em seu assassinato é evidente. Soma-se as estatísticas de crimes homofóbicos.

Segundo um artigo do portal Terra de 2013, podemos ver que a:

 chamada violência homofóbica, com 4.851 em 2012, uma média de 131,3 vítimas por dia, frente às 1.713 de 2011, quando a média foi de 4,69 vítimas por dia.

Segundo o estudo, entre as vítimas da violência homofóbica em 2012, 60,5% eram homens e 37,6 mulheres. Desses números, 60,5% tinham entre 15 e 29 anos e 51% conheciam o agressor.

As agressões contra homossexuais que mais cresceram entre 2011 e 2012 foram as psicológicas, com um salto de 83,2%, as discriminações (74,1%) e as físicas (32,68%).

No ano passado, 310 homossexuais foram assassinados por conta da opção sexual, o que representa uma alta de 11,5% em 2012 com relação ao ano anterior.

Trata-se de quase uma pessoa morta por dia em 2012. É um massacre de seres humanos.

E possivelmente nesses dados não entram suicídios, um drama profundo de milhares de jovens vítimas da repressão social que nossa sociedade impõe a livre orientação sexual. O suicídio é um caso que merece um texto particular, mas afirmo categoricamente que suas causas estão ligadas aos mesmos responsáveis pelo assassinato do Kaique.

Esse crime colocou um ponto final numa vida jovem que tinha anseios, desejos e sonhos. Um jovem como qualquer jovem do planeta.

Quem o matou?

A homofobia.

Quem são responsáveis pela homofobia seguir impune?

As instituições que teimam em bloquear a sua criminalização.

As igrejas, padres, pastores e outros pregadores (e seus respectivos seguidores) que teimam em demonizar toda orientação sexual diferente dos padrões estabelecidos por eles próprios.

As instituições do Estado a começar pela Polícia e a Justiça – que age como nos crimes contra pobres em geral – manipula estatísticas, enrola para investigar e punir de modo exemplar.

Os grandes meios de comunicação que, na sua maioria, exploram a imagem homossexualidade de modo estereotipado e estigmatizado para produzir audiência e seguem recusando afirmar que a orientação sexual não tem estereótipos e não gera estigmas. Em tantos telejornais policiais o que vemos é a humilhação e a desumanização (muitas vezes em conluio com as próprias autoridades).

Mas também é de responsabilidade deste Congresso Nacional que segue sendo dos mais de 300 picaretas segue engavetando todas as propostas de criminalização da homofobia. Por isso me somo ao jornalista Leonardo Sakamoto que em mais um ótimo artigo que afirma:

“Não sei onde estão os que executaram a ação, mas sugiro que os cúmplices sejam procurados no mais imponente dos prédios da Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde, por trás da imunidade parlamentar, se escondem entrincheirados defensores da discriminação, do preconceito e da intolerância. Deputados e senadores que bradam indignados mediante a tentativa de aprovação da lei que criminaliza a homofobia“.

O executivo do Estado brasileiro em todos os seus níveis também é responsável, mesmo que com profundas diferenças. Cada governo tem políticas diferentes. Cada nível tem diferenças de responsabilidades. Mas a questão é todos devem tomar partido diante desse massacre contra vidas humanas e agir de modo contundente diante da barbárie. Penso que crimes de ódio e crimes políticos deveriam ser federalizados para serem exemplos de investigação e punição.

A vida roubada deste jovem não pode ser esquecida. Recordo-me da jornalista Natália Viana – uma das melhores jornalistas de nosso país, que é uma das cabeças da agência de notícias A Pública –, alguns anos atrás cunhou conceito que foi título de seu livro reportagem “Plantados no Chão”. Sua origem é o povo Xukuro, comunidade indígena de Pernambuco, cujo lider Francisco Assis Araújo foi assassinado. Entre o povo Xukuro ninguém diz que Chicão (como era conhecido) foi enterrado. Dizem que foi “Plantado no Chão”.

A vida deste jovem, roubada de modo assombroso, deve ser um marco para o basta. O conceito no livro refere-se a crimes políticos. Talvez não fosse possível encaixar na sua acepção original. Mas acho que a sua brutalidade e particularmente a idade de Kaique sejam um tipo de “estopim” para a luta política pela criminalização da homofobia.

Por isso penso que seu sangue plantada no chão de nossa nação. Semeando a indignação e frutificando a força necessária para dar-se um basta a toda homofobia no país. E isso diz respeito não aos homossexuais e seus amigos e amigas. Mas a cada ser humano consciente no Brasil.

Alexandre Linares, é cientista social, professor e editor. Mantêm o blog http://www.ativandoneuronios.com.

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3 pensamentos sobre “Quem matou Kaique? A homofobia!

  1. Sinto a sua dor e a de milhares de brasileiro todos os dias, que estão cansados de todos esses massacres.

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