Sobre os Rolezinhos – textos, vídeos e charges

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As vezes a concentração de um tema na pauta das pessoas – na conversas no ônibus, na TV, nos jornais, nas revistas… – afogam as pessoas em versões sobre um tema. Entender a questão passa a ser complicado.

Quando os aviões atingiram o World Trade Center em 11/9/2001 aconteceu isso em nível planetário. Na época a internet era muito diferente de hoje. A chegada da chamada internet 2.0, onde a simplificação da comunicação facilitou a troca de impressões e opiniões, criou situações novas. Hoje quase todo celular está conectado à uma rede social e as pessoas se comunicam mais. E do mundo virtual as pessoas passam a querer viver o mundo real.

Em 2013, as jornadas de junho, onde mobilizações juvenis impuseram a derrota aos aumentos do transporte coletivo e ao mesmo tempo colocou diferentes outros temas na ordem do dia como o direito aos serviços públicos e a luta pela desmilitarização da Polícia Militar.

Nas conversas, muitos lembra que os rolezinhos não são novidade. Talvez a novidade seja a escala, a visibilidade e principalmente o fato de passarem a ocorrer em shoppings. Esses espaços de ostentação do consumismo, passou a ser debatido. Debate de vital importância, particularmente porque esses centros de compras são territórios da segregação e na maior parte das vezes estão intimamente ligados com a degradação social da cidade. O shopping nasce da falência da cidade. E os interessados nos lucros dos Shoppings não tem outro interesse que não seja a ampliação dos seus objetivos de lucro. Nos últimos anos, ao menos em SP, inúmeros shoppings abertos e com eles terríveis mudanças urbanas contra o comércio de rua, contra o transporte coletivo e até casos de incêndios em favelas nas suas proximidades. Mas isso é tema para outros textos.

A questão dos rolezinhos é o tema da coletânea de artigos que fiz. Diferentes abordagens mostram que os eventos evidenciam o abismo social existente no Brasil, o impacto da propaganda de consumo sobre as pessoas e principalmente o racismo e a violência do Estado e dos proprietários dos shoppings contra a juventude da periferia no Brasil.

Shoppings fazem propagandas na televisão chamando pessoas para seus espaços para agora irem a justiça (e conseguirem liminares judiciais) para proibir que determinados “tipos” de pessoas não entrem em seus espaços, numa atitude que lembra o tratamento do Estado de Israel aos jovens palestinos nos “postos de controle” ou ao tratamento dado à juventude negra da África do Sul durante o Apartheid.

Optei em fazer uma coletânea de artigos e matérias que li. Optei pois assim é possível ver a diversidade de abordagens e de questões que o tema possui. Os links dos artigos completos estão nos títulos.

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Verbete de Rolezinho na Wikipédia

“Rolezinho (diminutivo de “rolê”, gíria do português brasileiro que significa “encontro” ou “passeio”) é um tipo de flash mob que envolve organizar encontros entre centenas ou milhares de jovens de bairros periféricos em shopping centers. O fenômeno tem ocorrido principalmente em São Paulo, mas já houve encontros semelhantes em Guarulhos e Campinas. Há registros também de rolezinhos em parques.”


 

ROL3ZINHO – Matéria da Veja São Paulo

Em anos não vejo uma matéria tão ponderada, pesquisada e produzida pela revista Veja. Vale a pena.

Rolezinhos por Rafael Coimbra

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“Sérgio Vaz: No rolezinho, jovens devolvem “educação de qualidade”; periferia vive a sua Primavera de Praga” – Matéria do site Vi o Mundo

“São os jovens que não tem educação, são os jovens que não tem saúde, somos nós os pretos — como diria Castro Alves, somos nós, os teus cães. A sociedade colocou embaixo do tapete, mas não cabe todo mundo. O Estado tem ódio do pobre e do negro. Eu não sei de onde vem tanto ódio!”

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Vozes da periferia definem o que é rolezinho – Portal do Empresa Brasileira de Comunicação (EBC)

Populares e polêmicos devido aos recentes conflitos em shoppings de São Paulo, os rolezinhos recebem diferentes definições de especialistas, acadêmicos e militantes. Mas os encontros organizados pelos jovens ganham novas interpretações quando se conversa com os protagonistas dessa história, os integrantes de comunidades da periferia.

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‘Rolezinhos’ na palavra de quem vai – Matéria do portal G1

Depoimentos de jovens participantes. Muito bem bolada a pauta de dar voz a quem vai nos rolezinhos.

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Violência racista contra os jovens – Priscilla Chandretti, página da Juventude Revolução

“Os jovens haviam entrado (e não invadido!) no shopping para se proteger da ação da própria PM que gerou tumulto em um baile funk, próximo ao shopping – desde aí começou a violência racista! A própria assessoria de comunicação do shopping descartou a ocorrência de um arrastão e afirmou que nenhuma loja foi roubada ou danificada. Mas o secretário de Segurança Pública do Estado, André Garcia, tenta explicar: “Havia um tumulto e algumas pessoas relataram furtos na praça de alimentação. A polícia agiu corretamente. A intenção era identificar quem invadiu o shopping”. Nesse momento não havia dúvida para a PM: vamos logo deter todo jovem com cara de funkeiro!”

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‘Rolezinhos’ são realidade há anos em shoppings dos EUA – Site da BBC

“No Brooklyn, o Kings Plaza Shopping Center foi palco de um encontro de ao menos 300 jovens, convocados pelas redes sociais. Testemunhas disseram à imprensa local que eles gritavam, empurravam transeuntes e roubaram lojas. O shopping acabou fechando as portas por uma hora, informa o New York Post.
No dia seguinte, menores de idade não acompanhados de adultos foram barrados do local, despertando críticas dos que se sentiram tolhidos pela medida – e que queriam apenas fazer compras – e elogios dos que temiam novas cenas de confusão.”

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Rolezinhos: qual deles combina com você? – Artigo de Gabriela Leite republicado no site da Carta Capital

“Os temidos adolescentes da periferia que ocupam às centenas os shoppings paulistanos não tencionam nada muito diferente do que é feito normalmente em boates, bailes, festas e reuniões de outras pessoas da sua idade. A diferença é que a rede permite que muitos se conheçam e marquem encontros em massa. Gostam, como muitos outros adolescentes de diferentes classes sociais, de “causar” — chamar a atenção, fazer bagunça. Praticar isso em um shopping apenas reflete o que a vida lhes ensinou desde sempre: o consumo define a pessoa que você é, e para estar dentro desta sociedade é muito recomendável mostrar para todos o que você tem. Fazer baile de funk ostentação na rua não pode, mas marcar encontros no shopping também não?”

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A Periferia vai ao Paraiso – Matéria da Revista Fórum

“Consumo, sucesso e individualismo são hoje valores largamente hegemônicos na sociedade brasileira. Some-se a isso que essa molecada cresceu não apenas sendo bombardeada pela publicidade e pelos estímulos ao consumo como por um certo tipo de abordagem midiática que quase todo o tempo criminaliza a política.”

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Meu rolezinho no Rolezinho – Matéria da Revista VICE

“Sábado passado foi certamente um dos dias mais tristes de minha vida (…) o chefe da segurança do shopping estava e expulsava as crianças como se elas fossem cachorros vira-latas (nada contra animais) e lixo. Fiquei observando o procedimento adotado pelos seguranças e policiais. Só estavam deixando entrar famílias e casais maiores de idade. Os negros tinham suas bolsas e calças revistados — famílias inteiras de negros eram revistadas. A entrada de adolescentes brancos desacompanhados de maiores era liberada. Os adolescentes eram barrados e expulsos do shopping. (…) Não imaginava que um encontro pacífico marcado virtualmente terminaria em espancamento de adolescentes por policiais. Que o comércio receberia tão mal possíveis clientes. Que um shopping jogaria seu nome na lata do lixo publicamente por conta de um método de seleção por meio de cor e etnia para circular em seus estabelecimentos. E que a opinião publica iria aceitar que a culpa de um problema maior fosse colada em adolescentes.”

Quem tem medo de rolezinho? – Matéria da Revista Fórum

L.X (que pediu para ter nome e idade ocultados) é um participante dos rolezinhos e conversou com a reportagem do SpressoSP. O jovem declarou que a ideia central é “encontrar os amigos, conhecer pessoas, só que com um número maior de pessoas”. Sobre a acusação de promoverem arrastão e roubos, L.X desmente. “Não estamos invadindo nada, a gente só quer se divertir, só que vamos com mais pessoas, mas nada além disso”. O entrevistado chama a atenção para a ausência de espaços públicos e reclama da “falta de atenção dos políticos”, atestando que a sensação é de “abandono”.

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Etnografia do “rolezinho” – Rosana Pinheiro-Machado, artigo no site da Revista Carta Capital

“Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas, noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não adianta eles se vestirem com marca e virem pagar com dinheiro. Pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas. (…) Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. “

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Rolezinho não é caso de polícia, diz Ministra dos Direitos Humanos

“A ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, disse que “rolezinho não é caso de polícia, é caso de presença da juventude” nesta sexta-feira, 17, em Porto Alegre, ao final da solenidade de inauguração de um Centro de Referência em Direitos Humanos.

“Ainda que (os shopping centers) sejam lugares privados, eles são lugares para onde o público é convidado a ir; as pessoas não podem ser separadas nesses lugares entre aquelas que têm dinheiro para consumir e aquelas que não têm”, justificou.”

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A hora da política – “O rolezinho e o risco de uma guerra por recursos ‘longa e dolorosa'” – por André Singer, Folha de S. Paulo

O prefeito Fernando Haddad indicou o caminho certo. Diante do crescimento do conflito causado pelos “rolezinhos”, estimulou as partes a conversar. Como ficou claro em junho passado, atitudes extremadas só levarão ao desgaste da autoridade pública, com aumento da tensão social já visível nas grandes metrópoles.

O problema é que não há solução fácil no horizonte. Não basta disposição para o diálogo quando interesses materiais e simbólicos começam a se opor de maneira radical. Os jovens que estão deixando os centros de compra em pânico podem não saber, mas explicitam um confronto crescente entre ricos e pobres no Brasil.

A fala de Haddad e o silêncio de Dilma – Artigo de Antônio Martins no site Outras Palavras

Desta vez o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad foi preciso e veloz. Diante da atitude da PM paulista, que reprimiu com truculência um rolezinho de jovens periféricos num shopping da cidade, ele relacionou o movimento à segregação social brasileira. Lembrou que faltam, à maior parte da juventude, até mesmo “espaços para usufruir a cidade”. E, ao invés de mobilizar a Guarda Civil Metropolitana contra os que buscam tais espaços, preferiu orientar as secretarias de Cultura e Igualdade Racial a dialogar com eles.

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[ uma boa resposta para essa Charge foi essa  abaixo, do escritor Ricardo Lisias ]

ROLEZINHO NA LINGUÍSTICA – Artigo do escritor Ricardo Lisias, via Facebook

Povo desse meu amado Brasil, vejam vocês que escrever não é falar! Se nós gravarmos a fala de pessoas de classe social e escolaridades diferentes, vamos descobrir que todos igualmente adotam os mesmos procedimentos. Ou seja, não é apenas uma pessoa pobre que faz reduções na palavra e pronuncia “vamô”. Uma madame fala “to cas costa doeno”. Aliás, fala o dia inteiro.

Vejam aqui no Facebook como muita gente escreve “bora para o JK Iguatemi”. Então, transcrever foneticamente a fala de apenas uma classe social serve exclusivamente para estigmatizá-la…

Não estou aqui dizendo que esses rolezinhos são uma coisa bastante elegante e educada, ou que esses meninos estão muito politizados. Politizada foi a reação da justiça, da polícia e dos proprietários dos Shoppings. Só estou dizendo que por aqui é tudo igual. Todas as classes são vulgares e deselegantes. Só que uns podem ser tranquilamente, enquanto outros vão levar umas cacetadas. Não foi antes de ontem que um playboyzão agrediu uma artista plástica num restaurante caro de São Paulo só porque ela pediu um pouco mais de silêncio?

Então, meu amigo, entende um negócio: você não está passeando na margem do Hudson, você está aí na marginal Tietê, que fede. No Brasil, a única coisa democrática é a nossa língua suja. Esse aí não é o Noam Chomsky na televisão, não, meu filho. Olha direito: é o Arnaldo Jabor falando as barbaridades dele.

Muito bom dia, o fim de semana amanhece lindo na cidade de São Paulo! Não é o Quai de Seine, s’il vous plaît.

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A hora da política – “O rolezinho e o risco de uma guerra por recursos ‘longa e dolorosa'” – por André Singer, cientista político e professor da USP, na Folha de S. Paulo

“O prefeito Fernando Haddad indicou o caminho certo. Diante do crescimento do conflito causado pelos “rolezinhos”, estimulou as partes a conversar. Como ficou claro em junho passado, atitudes extremadas só levarão ao desgaste da autoridade pública, com aumento da tensão social já visível nas grandes metrópoles.

O problema é que não há solução fácil no horizonte. Não basta disposição para o diálogo quando interesses materiais e simbólicos começam a se opor de maneira radical. Os jovens que estão deixando os centros de compra em pânico podem não saber, mas explicitam um confronto crescente entre ricos e pobres no Brasil.”

O rolê da ralé – entrevista com o sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora ao Estado de S.Paulo

O problema real não é, em primeiro lugar pelo menos, nem da polícia nem das autoridades. É o apartheid social entre classe média europeizada e classes populares “bárbaras” de que falei. Ele cria regras não escritas e, por causa disso mesmo, muito eficientes – uma espécie de “constituição pré-jurídica” para a manutenção do racismo de classe que é nossa verdadeira lei maior. É esse apartheid que criou o tipo de polícia e a cultura da violência que temos. Ainda que a classe média – e suas frações mais conservadoras – não decida mais eleições majoritárias no Brasil, é ela que detém a hegemonia política e cultural e influencia não só amplos setores das próprias classes populares, mas também decide o que é julgado nos tribunais, o que é publicado nos jornais, dito na TV e o que é discutido nas universidades. Ela domina a esfera pública que decide o que é certo e errado na prática cotidiana real e é por isso que temos uma agenda de “políticas públicas informais” que inclui, por exemplo, matança indiscriminada e violência contra os pobres sem que ninguém – salvo em exceções dramatizadas pela mídia como o caso de Amarildo no Rio – seja responsabilizado. A ação do Estado e de seus órgãos é muito mais decidida por essas leis não escritas da sociedade do que pelos seus estatutos escritos para inglês ver”

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