Catadora de lixo de Volta Redonda passa em Direito na UFF

JM Coelho
Maria Nazaré disse que escolheu o Direito para poder defender as mulheres e principalmente outras catadoras
Objetivo: Maria Nazaré disse que escolheu o Direito para poder defender as mulheres e principalmente outras catadoras


Volta Redonda

Um exemplo de superação e persistência. É assim que pode ser definida a história da catadora de lixo, Maria Nazaré dos Santos. Com 55 anos, a moradora de Volta Redonda estudou sozinha, e contra todas as adversidades, conseguiu ser aprovada no vestibular da UFF (Universidade Federal Fluminense), através da nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e agora cursa Direito na instituição.

Natural de Viçosa, em Minas Gerais, Maria Nazaré contou que estudava sempre à noite, duas horas por dia, além de buscar dicas com outras pessoas.

– Começava 23h, quando estava em casa e ia até 1h da manhã. A ficha está começando a cair e junto com ela vai vir à responsabilidade. Eu não imaginei que iria passar. Além do material que eu tinha para estudar, eu procurava conversar com pessoas que tem estudo e sabem como funciona a prova para pegar dicas de como fazer a prova. Sabia que a redação era a mais complicada e por isso me dediquei mais nesse quesito – falou Maria Nazaré, lembrando que mesmo estudando até de madrugada, tinha que acordar às 6h para trabalhar.

Além da faculdade, ela divide o tempo com a presidência da Cooperativa Multifuncional de Catadoras do Sul Fluminense, onde coordena outras 14 mulheres. Segundo ela, o ingresso na faculdade e o novo cargo na cooperativa, são apenas fruto de uma caminhada que começou no ano 2000, quando começou a trabalhar em Volta Redonda.

Ela contou que como parou de estudar na 6ª série do Ensino Fundamental, resolver retomar os estudos após 18 anos longe das salas de aula. Para isso, ela se inscreveu em um supletivo.

– Quando resolvi voltar a estudar eu trabalhava lá no final da Cicuta, perto da UBM e usava o horário do almoço para poder ler as matérias. Saía do trabalho umas 17h e ia andando até o Conforto e aproveitava o caminho para também poder estudar, mesmo andando. Tenho essa facilidade para poder aprender as coisas e consegui terminar o Ensino Fundamental – disse ela, que também concluiu o Ensino Médio através de um supletivo.

– A conclusão (do Ensino Médio) me proporcionou uma carteira assinada que eu nunca havia tido na minha vida. Nunca é tarde para começar a mudar a sua vida e voltar a estudar. Para conseguir alguma coisa tem que se sacrificar e foi isso que eu fiz e consegui – completou, orgulhosa do feito.


Exemplo no trabalho

E a conquista de Maria Nazaré serve como exemplo para as demais catadoras da cooperativa.

– Sou a primeira das catadoras a entrar em uma faculdade. Assim que fiz a inscrição no Sisu (Sistema de Seleção Unificada) levei o comprovante para elas e falei que gostaria muito que elas crescessem junto comigo. E tenho certeza que isso irá acontecer. Não só elas, mas a juventude, que ao invés de desperdiçar o tempo com coisas erradas, deveriam ocupar com os estudos. Os nossos jovens estão se perdendo e se a pessoa quiser algo na vida, tem que estudar – afirmou.

Ligada a movimentos em pró das mulheres, Maria Nazaré contou que exatamente por isso optou pela faculdade de Direito, já que pretende continuar lutando pelos direitos das catadoras do Sul Fluminense.

– Existem muitas leis que não são respeitadas e também muitas que precisam ser renovadas. A constituição é antiga, mas se a gente ficar parados nada vai mudar. Eu quero me aperfeiçoar e aprender mais para poder lutar cada vez mais sobre os direitos das catadoras – garantiu Maria Nazaré que está contando os dias para o primeiro dia de aula.

– Um sonho sem agir é apenas um sonho. Já se você agir se torna realidade. Eu consegui e espero que mais gente também consiga. Estou muito ansiosa para começar as aulas e não quero parar na faculdade. Quero cada vez mais e continuar lutando pelos direitos das catadoras. Uma Nazaré sozinha lutando é uma coisa, agora todas lutando é muito mais forte – enfatizou.

Orgulho

Uma das professoras de Maria Nazaré foi a secretária de Políticas Públicas para Mulheres de Volta Redonda, Glória Amorim. Ela revelou que tem um orgulho muito grande da ex-aluna, que segundo Glória, é formada na escola da vida.

– Sempre falei que ela iria ouvir muita coisa boa, mas também muita coisa ruim. Então sempre disse para apenas absolver as boas e fazer uma análise crítica daquilo e procurar entender. Foi assim que ela aprendeu tudo. Tenho muito orgulho dela e tenho certeza que ela é um grande exemplo para qualquer pessoa – falou Glória que ainda destacou que Nazaré é uma grande parceira nas lutas pelos direitos das mulheres.

– É uma guerreira. Sempre está com a gente em diversos lugares lutando pelas catadoras e mulheres. Ela está de parabéns por tudo que andou conquistando e pode ter certeza que mais coisas boas estão por vir – encerrou.

Artigo de Pedro Borges (pedro.borges@diariodovale.com.br) publicado no jornal “Diário do Vale“.

 

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