O que aprendi com Antonio Candido

“Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.”
— Antonio Candido

 

Tive de esperar um pouco para escrever sobre a morte do professor Antonio Candido.

Uma das razões é que muito foi escrito e dito sobre essa figura singular.

Mas gostaria de falar minha experiência com o professor Antonio Candido. Encontrei-o apenas uma vez, num evento que ajudei a organizar em homenagem ao 100 anos de Hermínio Sacchetta e Fúlvio Abramo. Antonio Candido conheceu e conviveu com ambos e fez uma linda homenagem aos dois históricos jornalistas e militantes da esquerda brasileira.

A genialidade de Antonio Candido deve ser alvo de uma boa reflexão de todo aquele que quiser se debruçar sobre o Brasil. “Espantosa sua lucidez”, para usar as palavras de Raduan Nassar, era apenas uma de suas muitas qualidades. Qualidades de pessoas de uma época de desbravamentos intelectuais quando se formaram pensadores buscando a responder a formação e emancipação do povo e da nação brasileira. No caso, ele desbravou as entranhas da literatura brasileira com a suavidade e inteligências dignas de todas as homenagens que está recebendo.

Provavelmente o último dos gigantes intelectuais, sua obra é uma aula a cada paragrafo. Não é um erudito enfadonho. Ao contrário, sua combinação de simplicidade e complexidade séria, foge a linguagem que oculta o conhecimento. Seus ensinamentos em sua obra, ao menos a parte que pude ler deste mestre, foi digna de um humanismo que explica que na sua vida nunca deixou de dizer que na sociedade dividida em classes, mesmo tendo nascido em uma das mais abastadas famílias tradicionais de São Paulo, sempre esteve ao lado dos explorados e oprimidos. E por isso, nunca deixou de declarar-se socialista.

Um artigo em particular, me causou um impacto profundo. E por ele, em seus poucos parágrafos, considero que Antonio Candido também foi meu professor. Foi “O livro que fez a cabeça de Antônio Candido”, publicado na revista Teoria e Debate, onde relata o significado da obra “História do Socialismo e das Lutas Sociais” do jornalista e historiador austríaco Max Beer. O livro de Beer, pode ter passagens historicamente questionáveis por contra de anacronismos, mas é profundamente bem escrito, sedutor, conquistador. Um livro de vulgarização das razões pela qual na sociedade, sempre temos de escolher um lado nas lutas sociais. Lembro-me que depois de ter lido o livro, fiquei embasbacado por conhecer na história, diferentes lutas em distintas épocas entre os oprimidos e opressores, entre os explorados e exploradores.

Anos depois, por indicação de José Arbex, conheci o companheiro Bellé, editor da Expressão Popular. Nessa oportunidade levei a ele meu exemplar. E recordei na conversa da dica do professor Antonio Candido. Creio que meu antigo exemplar da década de 1930, num estado já bem desgastado serviu como base para a reedição da obra, permitindo às novas gerações encontrarem no livro apresentado pelo grande professor, o mesmo entusiasmo que o contaminou na sua juventude.

A morte do professor Antonio Candido, como explica o crítico e professor Roberto Schwarzé uma perda enorme que nos deixa mais sós”. Sós diante da insensatez e da ignorância.

Sua morte é sua entrada na imortalidade dos gigantes do pensamento social brasileiro. E que isso faça seu legado, uma alavanca para os novos leitores que tem muito para aprender com nosso mestre.

Alexandre Linares, professor, editor e cientista social.

PS: Agradeço ao meu amigo Arthur Dantas por me avisar da perda deste mestre e a comparação que fez lembrando nosso amigo Rogério de Campos.


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Verbetes sobre Antônio Cândido

Artigos de Antonio Candido

Alguns dos livros de Antonio Candido

Algumas das reportagens e artigos sobre Antônio Candido

Catadora de lixo de Volta Redonda passa em Direito na UFF

JM Coelho
Maria Nazaré disse que escolheu o Direito para poder defender as mulheres e principalmente outras catadoras
Objetivo: Maria Nazaré disse que escolheu o Direito para poder defender as mulheres e principalmente outras catadoras


Volta Redonda

Um exemplo de superação e persistência. É assim que pode ser definida a história da catadora de lixo, Maria Nazaré dos Santos. Com 55 anos, a moradora de Volta Redonda estudou sozinha, e contra todas as adversidades, conseguiu ser aprovada no vestibular da UFF (Universidade Federal Fluminense), através da nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e agora cursa Direito na instituição.

Natural de Viçosa, em Minas Gerais, Maria Nazaré contou que estudava sempre à noite, duas horas por dia, além de buscar dicas com outras pessoas.

– Começava 23h, quando estava em casa e ia até 1h da manhã. A ficha está começando a cair e junto com ela vai vir à responsabilidade. Eu não imaginei que iria passar. Além do material que eu tinha para estudar, eu procurava conversar com pessoas que tem estudo e sabem como funciona a prova para pegar dicas de como fazer a prova. Sabia que a redação era a mais complicada e por isso me dediquei mais nesse quesito – falou Maria Nazaré, lembrando que mesmo estudando até de madrugada, tinha que acordar às 6h para trabalhar.

Além da faculdade, ela divide o tempo com a presidência da Cooperativa Multifuncional de Catadoras do Sul Fluminense, onde coordena outras 14 mulheres. Segundo ela, o ingresso na faculdade e o novo cargo na cooperativa, são apenas fruto de uma caminhada que começou no ano 2000, quando começou a trabalhar em Volta Redonda.

Ela contou que como parou de estudar na 6ª série do Ensino Fundamental, resolver retomar os estudos após 18 anos longe das salas de aula. Para isso, ela se inscreveu em um supletivo.

– Quando resolvi voltar a estudar eu trabalhava lá no final da Cicuta, perto da UBM e usava o horário do almoço para poder ler as matérias. Saía do trabalho umas 17h e ia andando até o Conforto e aproveitava o caminho para também poder estudar, mesmo andando. Tenho essa facilidade para poder aprender as coisas e consegui terminar o Ensino Fundamental – disse ela, que também concluiu o Ensino Médio através de um supletivo.

– A conclusão (do Ensino Médio) me proporcionou uma carteira assinada que eu nunca havia tido na minha vida. Nunca é tarde para começar a mudar a sua vida e voltar a estudar. Para conseguir alguma coisa tem que se sacrificar e foi isso que eu fiz e consegui – completou, orgulhosa do feito.

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Carolina Segawa: 1º lugar em Medicina na UNESP dá a dica

Sempre falo sobre o tema. Mas sou professor. Vindo da boca de alguém que alcançou seu objetivo após 3 anos de estudo, penso que terá mais efeito:

“Nos outros anos, eu sempre ficava muito ansiosa. Por mais que eu soubesse o conteúdo, na hora dava branco. Dessa vez estava mais tranquila, confiando mais em mim”. 

A Carolina Segawa está de parabéns. Siga o exemplo dela: menos ansiosidade, mais tranquilidade.

 Leia o restante da entrevista no UOL Educação clicando aqui.

“A Última Pergunta” – um conto de Isaac Asimov

Asimov

Breve introdução ao conto “A Última Pergunta” de Isaac Asimov

A ficção cientifica é o palco onde a humanidade explora sua imaginação. É o terreno onde se produz o futuro, quando não se adapta as regras e limites do presente. É o terreno do novo, do revolucionário, da evolução ilimitada ao progresso que deveria ser o norte.

O fato é que a ficção é a construção do futuro no presente.  É o dia de amanhã produzido pelas ideias de hoje. Em nossa época a ficção se materializa para a maioria na forma cinematográfica. A literatura de ficção é por demais maltratada pelo mercado editorial que sempre a classifica como uma “sub” literatura.

Mas ela também tem limites que são os limites da consciência da sua época. Hoje a ficção é determinada pelo desprezo da imaginação e da criação por um “Futuro” com “F” maiúsculo. É aquilo que o crítico Fredric Jameson observou no seu “ Archaeologies of the Futureque em nossa época o futuro assume duas formas majoritárias: o hecatombe (destruição, devastação, holocausto…)  seja nuclear (Mad Max, p.ex.) , seja zumbi (Walking Dead, p.ex.), seja robótico/cibernético (Matrix e Exterminador do Futuro, p.ex.) ou catastrófico ambiental (Um dia depois do Amanhã, p.ex.). Ou mais do mesmo que vivemos (como Blade Runner:  O Caçador de Andróides ou Minority Report p.ex.), uma repetição de nossa época (dos sofrimentos, das desigualdades, dos problemas) sem mudanças no modo de viver da humanidade. É verdade que poderíamos incluir aquela ficção que é similar ao antigo, por exemplo as novelas de cavalaria, como o caso de Guerra nas Estrelas (Star Wars) onde o que temos é o antigo contado nos moldes da ficção cientifica. 

Há exceções maravilhosas como a Jornada nas Estrelas (Star Trek) onde o futuro é desbravador no melhor sentido da palavra, é ir “onde ninguém jamais esteve”. Seja na série clássica, seja na Nova Geração, onde o capitão Jean Luc Picard chegou a explicar que a humanidade já havia superado as relações monetárias (e isso só pode acontecer com a planificação econômica, ou seja com o socialismo). 

Mas o maior gênio da melhor ficção é sem dúvidas Isaac Asimov. O impacto de sua obra não é apenas na imaginação, mas na própria ciência cujo ideias impactaram e impactam que os lê. Talvez sua juventude como marxista tenha ajudado a pensar num futuro de emancipação humana. Sem compromisso com o socialismo até o fim da vida explica profundamente o conjunto de sua obra associado a um futuro progressivo. Um futuro pela qual vale a pena sonhar.

O conto “A Última Pergunta” é talvez aquele que mais tenha me impactado. Sua

Por isso publico para vocês lerem. Espero que gostem.

Dedico essa publicação aos meus amigos Gustavo Rosa, Luã Cupollilo e Priscilla Chandretti.

Alexandre Linares

A Última Pergunta – conto de Isaac Asimov

A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em dire-ção à luz . A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares mo-vida a álcool, e aconteceu da seguinte forma.

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes de Multi-vac. Eles conheciam melhor do que qualquer outro ser humano o que se passava por trás das milhas e milhas da carcaça luminosa, fria e ruidosa daquele gigantes-co computador. Ainda assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um humano solitário poderia sequer tentar entender.

Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois ne-nhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superfi-cialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as neces-sidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era Multivac.

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Qual a história do nome de sua rua?

O blogueiro Alexandre Inagaki, um dos mais divertidos visionários da web desde sua época na faculdade,  fez um artigo muito legal no seu Pensar Enlouquece, Pense Nisso!.

O artigo tem como título “Os nomes de ruas mais bizarros no Google Street View“.

Que tal morar na rua Maravilha Tristeza?

Ou na rua dos Pensamentos Poéticos?

Vale a pena saber mais sobre essas ruas e outras clicando aqui para visitar o artigo completo do Iganaki.

Mas o que me motivou a escrever esse post é uma razão pedagógica.

É uma pena que hoje eu só dê aulas para cursinho. E no cursinho é só aula. Não há pesquisa ou trabalho. Uma pena.

Seria muito legal ter uma turma de Ensino Médio ou Fundamental para fazer um projeto sobre história do nome das ruas onde cada um mora. Poderia ser um trabalho de produção e edição de texto na Wikipédia, ligando os verbetes das ruas aos verbetes que originaram o nome das ruas. Pesquisando, fotografando, buscando informações inéditas. Seria uma forma legal de ensino através da pedagogia da pesquisa e da colaboração coletiva.

Acredito que isso faria as pessoas entenderem muito mais de história, do que ficar lendo sobre corveias e banalidades ou sobre plantation.

“Instituições públicas devem zelar por espaços públicos na internet” – Entrevista com Pedro Puntoni

Muito interessante a reflexão do professor Pedro Puntoni, diretor da Biblioteca Brasiliana da USP. Para quem não conhece, recomendo: http://www.brasiliana.usp.br/.

Entrevista com o historiador e coordenador do projeto Brasiliana USP, Pedro Puntoni. Ele participou do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, de 26 a 29 de abril, em São Paulo, SP, Brasil.

tópicos do vídeo:
– o que é a Brasiliana USP, criada a partir da doação do acervo de Guita e José Mindlin
– desafio é preservar o acervo para as futuras gerações e ao mesmo tempo garantir acesso à presente geração
– robô Maria Bonita digitaliza os livros de José Mindlin, auxiliado por restauradores de livros
– Google Books não tem interesse na Brasiliana, por não ter interesse comercial. Google parte da quantidade, não da qualidade
– Livros obrigatórios para a o vestibular da Fuvest estarão online, de graça
– Brasiliana Digital é um espaço público virtual
– Direito de autor é um direito moral, não deve ser uma propriedade inquestionável. Homem é um ser coletivo
– Indústria do livro brasileira ainda não entendeu como lidar com a cultura digital