As origens da biomedicina, o racismo e ausência de ética na ciência

Henrietta Lacks

Livro resgata mulher que transformou a biomedicina

Obra é passeio assustador por ética em pesquisas e estigmas raciais dos EUA

Família não sabia de experimentos com células de paciente, relata “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

Por anos, a americana Deborah Lacks teve pesadelos com os experimentos macabros que cientistas do mundo todo andavam fazendo com sua pobre mãe, Henrietta.

A mãe de Deborah tinha sido inoculada com o vírus da poliomielite, clonada milhões de vezes, submetida a explosões atômicas e à microgravidade do espaço sideral. Tudo isso depois de morrer de câncer e ressuscitar, tornando-se imortal.

É claro que há um mal-entendido trágico nessa história. Henrietta Lacks morreu em 4 de outubro de 1951. Mas o câncer de colo de útero que a matou deu origem, em laboratório, às células HeLa, a mais importante linhagem “imortal” de células humanas, que viraram ferramentas indispensáveis para a biomedicina. Essa revolução tecnológica aconteceu sem o conhecimento ou o consentimento da morta ou de sua família, conta a bióloga e escritora Rebecca Skloot em “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, que acaba de chegar ao país.

NÓDOA

A obra é um passeio esclarecedor -e assustador- pelo nascimento da biotecnologia e da (falta de) ética em pesquisa com seres humanos. E também pelas mazelas raciais do sul dos EUA: os Lackses eram negros da zona rural da Virgínia, nascidos e criados numa cabana de escravos, plantando tabaco.

“Aparentemente os cientistas nunca se deram ao trabalho de explicar o que foi feito das células de Henrietta porque achavam que os Lackses seriam incapazes de entender aquilo”, disse Skloot à Folha.

“Isso foi antes do movimento dos direitos civis, no atendimento a negros pobres numa ala de indigentes do hospital [da Universidade Johns Hopkins], então a transparência nem era uma consideração para os médicos”, lembra a autora.
“Aliás, mesmo pacientes brancos tinham seus tecidos retirados e usados para pesquisa sem consentimento.” A coisa piorou décadas depois, quando o marido e os filhos de Lacks foram procurados para estudos genéticos, dada a importância crescente das células HeLa.

“Para pessoas como eles e para o público em geral, a diferença entre clonar uma pessoa e clonar apenas suas células fica completamente borrada”, diz Skloot. “Mas, no fim das contas, eles conseguiram entender a importância das células, e o fato de que a mãe deles não sofria com os experimentos.”

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS


AUTOR Rebecca Skloot

EDITORA Companhia das Letras

TRADUÇÃO Ivo Korytowski

QUANTO R$ 42 (464 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

Fonte:  Folha de S. Paulo, 26/3/2011

Florestan Fernandes – Evocações na Contramão

Na Praça da Sé, um repentista canta, em forma de cordel, a vida de Florestan Fernandes, importante sociólogo brasileiro. O repente abre caminho para os depoimentos dos companheiros de cátedra, de gabinete e de militância de Florestan. Contam de suas idéias, sua visão crítica sobre o Brasil, seus ideais e decepções durante a vida pública. Imagens que marcaram a vida de Florestan: a câmara dos deputados , a universidade, a família.

No documentário “Florestan Fernandes – Evocações na Contramão”, de Lucas Ferreira, o cordel revela o ponto de vista do povo sobre a história recente do Brasil, com suas lutas e desafios, que como Florestan, insistia em lutar contra as correntes.

Documentário realizado como Projeto de Conclusão de Curso na UFSCar, Bacharelado em Imagem e Som. (mini-DV, 25 min, 2002).

Fonte: Blog da Boitempo Editorial