Mães que abandonam seus filhos e as chagas de Obaluaiê

Artigo de Lívia Tiede publicado no blog TAB na Rede e divulgado pelo site Vi o Mundo.

Mães que abandonam seus filhos e as chagas de Obaluaiê

Conta-se na mitologia yorubá que Obaluaiê (orixá das curas) nasceu repleto de pústulas, e, por isso, sua mãe Nanã teria abandonado o recém-nascido a própria sorte numa floresta. O bebê-orixá entretanto, foi encontrado por Iemanjá, que cuidou das feridas e criou o menino, até que ele atingisse idade suficiente para seguir seus próprios desígnios.

Hoje faz uma semana que os veículos de comunicação mostraram as cenas gravadas por uma câmera de segurança em que uma mulher caminha até uma caçamba de entulho e lá deixa um embrulho. O pacote, descoberto por um catador de lixo, continha um bebê de poucos dias de vida. Essa não é a primeira história de abandono de filhos recém-nascidos realizados pelas mães, a exemplo da lenda narrada.

Compartilho outra, nem atual, nem mitológica. Numa tarde qualquer por volta do 1900, um grupo de crianças que saia do colégio nas imediações da Avenida Paulista, avistou uma caixa de papelão que se mexia. Ao aproximarem-se descobriram o frágil corpinho de um bebê. Nos autos policias que se lavraram a partir do falecimento do minúsculo ser, ficou registrado que a vítima era da cor parda. A partir desse fato, algumas pessoas apresentaram-se para testemunhar: tinham categoricamente avistado uma mulher de cor escura largar um pacote na avenida. A comoção popular chegou aos jornais, e esperava-se arduamente pela punição daquela que, tendo o privilégio de parir, não era digna o bastante para manter sua cria. Foram enviados destacamentos aos hospitais da região, e toda mulher negra ou parda que procurasse por socorro clínico devia ser avaliada, para que se houvesse a certeza de que seus problemas não eram oriundos do infortúnio que gerou a morte do rebento abandonado. Não conseguiram, alhures, encontrá-la.

Quando ouvi pela primeira vez a história de Obaluaiê, abandonado pela mãe, coberto de chagas, obviamente me compadeci do indefeso. A senhora de idade que me narrou a lenda, entretanto, emendou sem pestanejar: na minha crença não julgamos as mães que abandonam seus filhos, elas tiveram seus motivos.

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Crianças africanas na prisão – fotos de Fernando Moreales

Essa exposição virtual do fotógrafo Fernando Moreales é inacreditável. Crianças e jovens presos nas piores condições possíveis.

Mas óbvio que sou obrigado a cair na real e acreditar.

No Brasil uma menina de 15 anos já foi presas em uma cela masculina com 23 homens. A indústria do carcerária é mais uma das miseráveis indústrias da atualidade. É onde o sistema quer a juventude.

É preciso acreditar para pensar e se indignar. E lutar contra isso. Se você é capaz de se indignar, meu leitor, então você é dos meus.

Fiz uma tradução livre do texto do site do fotógrafo:

CRIANÇAS AFRICANAS NA PRISÃO

Mohamed Conteh, 14 anos, foi preso por portar pequena quantidade de maconha e passou quatro dias na delegacia de polícia sem alimentos. A polícia pediu 30 000 leones (7,5 euros) para ser liberado. Depois de vários meses na prisão, ele foi condenado a três anos de prisão ou pagar fiança de 100 mil leones (25 Euros). Ele estava morando na rua e não tenho dinheiro.

Após a guerra civil de milhares órfãos estavam vivendo nas ruas.

É uma lei não escrita que a maioria dos pobres nos países do continente africano não tem um advogado na maioria dos julgamentos. Uma vez presos passam anos na cadeia antes de receber a sentença.

Milhares de crianças na África estão na prisão com adultos que vivem em condições tão extremas que sua sobrevivência está em risco. Deveriam estar em casa, com prisão preventiva, mas a lei não é cumprida.

A superlotação das penitenciárias, a violência, abuso sexual, promiscuidade, desnutrição, doenças infecciosas, péssima higiene e falta de assistência médica são ocorrências comuns.”

Mohamed Conteh

Veja mais fotos no site do fotógrafo clicando aqui.