Sobre a suspensão de dois blogues com livros para Donwnload

Os blogues Letras USP e Livros de Humanas eram duas das ferramentas de assistência estudantil mais importante na atualidade. Organizado por estudantes da USP ambos era o ponto de encontro de milhares de estudantes que buscavam desesperadamente de livros e capítulos de livros para realizar seus estudos, se prepararem para provas e produzirem trabalhos acadêmicos.

Com as bibliotecas sem livros para atender a demanda, com os livros esgotados ou caros demais para serem comprados, esses blogues eram como um salva-vidas para muitos estudantes.

Resultados de uma iniciativa de auto-organização de estudantes que sentiam a necessidade de fazer algo para resolver um problema real e concreto para atender uma necessidade que as instituições de ensino superior  não dão conta.

O sistema WordPress derrubou ambas bibliotecas por conta de uma solicitação movida pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR).

É um equívoco brutal. Corta-se o acesso à cultura e aos livros e não há nada no lugar.  Fica evidente que é o lucro que interessa e não o direito ao conhecimento e a cultura para todo estudante universitário se formar de modo adequado.

Se a ABDR existisse no mundo antigo, atacaria sem piedade a Biblioteca de Alexandria no Egito helênico? A ABDR mandaria apedrejar todos os escribas-copistas dos manuscritos lá guardados? Ou optaria em queimar a própria biblioteca?

É uma política obscurantista, retrógrada e reacionária.  Longe de buscar uma solução para o problema, o que buscam  busca-se destruir o acesso ao conhecimento. Inclusive conhecimento que estava lá cujo conteúdo ou estava em domínio público ou seus autores não estavam dispostos a reclamar pela ampla divulgação do conteúdo.

Esse é o medo das transformações tecnológicas na leitura do livro. Os leitores digitais vão fazer com a indústria editorial o que o iPod e o MP3 Player fez com as grandes gravadoras.

Para enfrentar isso, o mercado editorial precisa tocar na questão chave do problema: o preço do livro! Com a chegada dos leitores eletrônicos só a redução do preço do livro pode evitar a generalização da pirataria. E o preço do livro deveria ser um pouco menor que o valor de SMS para que ninguém fique em dúvida que é mais barato comprá-lo do que gastar tempo em encontrar uma cópia pirata.

É essa a questão chave para o mercado editorial e para a democratização do acesso a cultura produzida na forma de livros.

Dessa forma, se continuar desse jeito, porque a sociedade não vai questionar a justa e ampla isenção fiscal e tributária que a cadeia do livro possui?

Afinal, se a sociedade isenta a cadeia produtiva de livros é para facilitar o acesso aos livros e não para dar lucro aos seus proprietários das editoras.

Quando os livros deixam de ser vendidos (por estarem esgotadas ou pela falência da editora por exemplo) a sociedade não pode pagar com isso com o desaparecimento do livro ou a limitação do seu acesso as bibliotecas físicas num onde as tecnologias pode ajudar a multiplicar os leitores e o acesso ao conhecimento.

É um debate duro. Intenso. E sem dúvidas necessário.

Leia a entrevista com o criador do Blogue Livros de Humanas feito para o Blogue Prosa do O Globo.

Suspensão de blog com livros piratas cria discussão na web

Uma mensagem de violação dos termos de uso anunciou semana passada aos milhares de visitantes diários do blog Livros de Humanas a suspensão da página, que era hospedada pelo WordPress. Criado em 2009 por um aluno da USP, o blog formou em pouco mais de dois anos uma biblioteca maior do que a de muitas faculdades brasileiras. Até sair do ar, reunia 2.496 títulos, entre livros e artigos, de filosofia, antropologia, teoria literária, ciências sociais, história etc. Um acervo amplo, de qualidade, que podia ser baixado imediatamente e de graça.

Muitas pessoas, é claro, adoravam a página. Entre elas, no entanto, não estavam os editores dos livros reunidos ali. A biblioteca do Livros de Humanas era toda formada sem qualquer autorização.

– É óbvio que o blog desrespeita a legislação vigente – diz o criador da página, que mantém anonimato, numa entrevista por e-mail. – Mas não porque somos bandidos, mas porque a legislação é um entrave para o desenvolvimento do pensamento e da cultura no país.

O mesmo argumento foi defendido nos últimos dias no Twitter por intelectuais como o crítico literário Idelber Avelar, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, a escritora Verônica Stigger e o poeta Eduardo Sterzi. Do outro lado da discussão, críticas à pirataria. A Editora Sulina, que vinha pedindo a remoção da página, falou em “apropriação indevida” e o escritor Juremir Machado escreveu: “Quem chama pirataria de universalização da cultura é babaca q ñ vende livro, mas quer q alguém pague a conta. Livro tem de ser barato e pago”.

O caso chama atenção para a ampliação da circulação de arquivos digitais de livros na internet, uma prática que dá novo sentido e escala à discussão sobre a circulação de cópias xerocadas no meio acadêmico.

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