Saúde reprodutiva privada e eugenia nas terras brasileiras: um só problema.

Depois de ler a reportagem da revista da Época, a única coisa que me passa na cabeça é que a fertilização in-vitro deve ser monopólio de estado e com fiscalização direta e transparente por parte do governo.

Essa máquina de dinheiro que são as clínicas de inseminação e fertilização artificial são por natureza um horror. Lucram com o desespero das famílias que lutam para gerarem filhos.

Agora sabemos que a ficção do filme “Gattaca – A Experiência Genética” é realidade nas salas destas clinicas. A eugênia é realidade para as elites nessa farra do mundo privado da saúde reprodutiva.

A iniciativa privada é o próprio Frankenstein montruoso desta história. Se em geral a medicina privada é abominável, afinal lucrar com a saúde é algo que vai contra o Juramento de Hipócrates. Lucrar com o desejo de homens e mulheres de procriarem é de fato a bestialidade das monstruosidades.

Nem saúde privada, nem gestão privada da saúde pública.  Saúde pública estatal é a solução.

Parabéns para a equipe da Época pela reportagem.

Dr. Horror:

pais descobriram que os bebês concebidos com a ajuda de Roger Abdelmassih não eram seus filhos biológicos

Em 23 de novembro de 2010, a Justiça brasileira deu seu veredicto: a clínica de reprodução assistida do médico Roger Abdelmassih fora palco de um show de horror. A acusação de ter estuprado sistematicamente dezenas de pacientes levou o mais renomado especialista em reprodução humana do Brasil ao banco dos réus em 2008. A condenação de Abdelmassih a 278 anos de prisão pelos abusos, no entanto, não encerrou um dos mais dramáticos capítulos da história médica do país. Nos últimos dois anos, o Ministério Público do Estado de São Paulo e a Polícia Civil investigaram, em sigilo, os procedimentos médicos da clínica e recolheram depoimentos de ex-pacientes de Abdelmassih. Somem-se aos dois inquéritos as revelações feitas a ÉPOCA pelo ex-colaborador do médico, o engenheiro químico Paulo Henrique Ferraz Bastos (leia a entrevista), e chega-se a uma conclusão estarrecedora: parte dos cerca de 8 mil bebês gerados na clínica de Abdelmassih não são filhos biológicos de quem imaginam ser.

Essa conclusão é resultado de exames de DNA feitos em pacientes da clínica e em seus filhos. As autoridades estão convencidas de que Abdelmassih enganava seus clientes e implantava no útero da futura mãe, sem o conhecimento do casal, embriões formados a partir de óvulos e espermatozoides de outras pessoas. Os pais biológicos das crianças são outros, e não o casal que se sentou nas poltronas do consultório de Abdelmassih disposto a se submeter ao tratamento de reprodução e que pagou os milhares de reais que o médico cobrava pela fertilização. Pelo menos três casais, um de São Paulo, outro do Rio de Janeiro e o terceiro do Espírito Santo, já descobriram, depois do nascimento da criança, que o DNA de um dos dois não é compatível com o do filho. Esses três casais contaram sua história, comprovada por exames laboratoriais, em depoimento ao Ministério Público. ÉPOCA teve acesso ao processo e revela o conteúdo do depoimento de um desses casais, cuja identidade não será revelada.

Leia a reportagem completa na revista Época.

As origens da biomedicina, o racismo e ausência de ética na ciência

Henrietta Lacks

Livro resgata mulher que transformou a biomedicina

Obra é passeio assustador por ética em pesquisas e estigmas raciais dos EUA

Família não sabia de experimentos com células de paciente, relata “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

Por anos, a americana Deborah Lacks teve pesadelos com os experimentos macabros que cientistas do mundo todo andavam fazendo com sua pobre mãe, Henrietta.

A mãe de Deborah tinha sido inoculada com o vírus da poliomielite, clonada milhões de vezes, submetida a explosões atômicas e à microgravidade do espaço sideral. Tudo isso depois de morrer de câncer e ressuscitar, tornando-se imortal.

É claro que há um mal-entendido trágico nessa história. Henrietta Lacks morreu em 4 de outubro de 1951. Mas o câncer de colo de útero que a matou deu origem, em laboratório, às células HeLa, a mais importante linhagem “imortal” de células humanas, que viraram ferramentas indispensáveis para a biomedicina. Essa revolução tecnológica aconteceu sem o conhecimento ou o consentimento da morta ou de sua família, conta a bióloga e escritora Rebecca Skloot em “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, que acaba de chegar ao país.

NÓDOA

A obra é um passeio esclarecedor -e assustador- pelo nascimento da biotecnologia e da (falta de) ética em pesquisa com seres humanos. E também pelas mazelas raciais do sul dos EUA: os Lackses eram negros da zona rural da Virgínia, nascidos e criados numa cabana de escravos, plantando tabaco.

“Aparentemente os cientistas nunca se deram ao trabalho de explicar o que foi feito das células de Henrietta porque achavam que os Lackses seriam incapazes de entender aquilo”, disse Skloot à Folha.

“Isso foi antes do movimento dos direitos civis, no atendimento a negros pobres numa ala de indigentes do hospital [da Universidade Johns Hopkins], então a transparência nem era uma consideração para os médicos”, lembra a autora.
“Aliás, mesmo pacientes brancos tinham seus tecidos retirados e usados para pesquisa sem consentimento.” A coisa piorou décadas depois, quando o marido e os filhos de Lacks foram procurados para estudos genéticos, dada a importância crescente das células HeLa.

“Para pessoas como eles e para o público em geral, a diferença entre clonar uma pessoa e clonar apenas suas células fica completamente borrada”, diz Skloot. “Mas, no fim das contas, eles conseguiram entender a importância das células, e o fato de que a mãe deles não sofria com os experimentos.”

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS


AUTOR Rebecca Skloot

EDITORA Companhia das Letras

TRADUÇÃO Ivo Korytowski

QUANTO R$ 42 (464 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

Fonte:  Folha de S. Paulo, 26/3/2011