“Instituições públicas devem zelar por espaços públicos na internet” – Entrevista com Pedro Puntoni

Muito interessante a reflexão do professor Pedro Puntoni, diretor da Biblioteca Brasiliana da USP. Para quem não conhece, recomendo: http://www.brasiliana.usp.br/.

Entrevista com o historiador e coordenador do projeto Brasiliana USP, Pedro Puntoni. Ele participou do Simpósio Internacional de Políticas Públicas para Acervos Digitais, de 26 a 29 de abril, em São Paulo, SP, Brasil.

tópicos do vídeo:
– o que é a Brasiliana USP, criada a partir da doação do acervo de Guita e José Mindlin
– desafio é preservar o acervo para as futuras gerações e ao mesmo tempo garantir acesso à presente geração
– robô Maria Bonita digitaliza os livros de José Mindlin, auxiliado por restauradores de livros
– Google Books não tem interesse na Brasiliana, por não ter interesse comercial. Google parte da quantidade, não da qualidade
– Livros obrigatórios para a o vestibular da Fuvest estarão online, de graça
– Brasiliana Digital é um espaço público virtual
– Direito de autor é um direito moral, não deve ser uma propriedade inquestionável. Homem é um ser coletivo
– Indústria do livro brasileira ainda não entendeu como lidar com a cultura digital

Um herói em quadrinhos, por heróis dos quadrinhos


Che – os últimos dias de um herói não é apenas uma história em quadrinhos. É uma obra histórica no pleno sentido da palavra.

A melhor definição para este livro, ainda que terrível, é de um militar argentino sobre o autor do seu roteiro, Hector Oesterheld: “Demos um sumiço nele, por ter feito a mais bela história do Che que já foi escrita”. Logo depois de publicada a obra é proibida. Os originais e os estoques foram destruídos pelos generais de plantão.

Hector Germán Oesterheld é o grande roteirista de quadrinhos argentino. Seu trabalho é reconhecido na Argentina no mesmo patamar das obras de Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Ernesto Sábato. Sua principal obra, El Eternalta é um verdadeiro clássico. Uma obra profunda de ficção com uma das melhores metáforas antiimperialistas já feitas. Esse gênio, e suas quarto filhas (Marina, 18 anos; Beatriz, 19 anos; Diana, 23 anos e Estela, 24 anos) até estão nas  hoje seguem na lista dos “desaparecidos” da ditadura argentina desde 1977 – junto com outros 30 mil argentinos.

O desenhista Alberto Breccia e seu filho Enrique que fizeram toda arte do livro, sobreviveram para prosseguir lutando com sua arte. São exemplos do melhor do desenho de histórias em quadrinhos do ocidente. O desenhista estadunidense Frank Miller, admirado por gerações de leitores de quadrinhos afirma que “A história em quadrinhos é dividida em duas épocas: a que vem antes e a que vem depois de Alberto Breccia.”.

O Che Guerava desta obra, não é um herói sobrenatural e nem veio de outro planeta.  É um ser humano.

Nos traços e sobras desta história, o que vemos é a face de uma vida dedicada à transformação da realidade, contra a injustiça e opressão. Como escreveu aos seus filhos, dizendo “sejam sempre capazes de sentir no seu mais profundo ser qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais linda de um revolucionário”.

Ler Che – os últimos dias de um é herói é ver um exemplo do otimismo revolucionário, um exemplo de vidas dedicadas à construção do homem novo, sem mitos ou fantasias.

Alexandre Linares, professor, editor e cientista social

Publicado originalmente edição número 20 do jornal Le Monde Diplomatique de março de 2009 .