Charge causa demissão de cartunista no Paraná – Qual sua opinião?

Uma charge causou grande polêmica. O jornalista foi demitido.
Eu fiquei indignado originalmente. Por isso refaço o post, pois alguns amigos conversaram comigo levantando argumentos de vários tipos. Mas o que me convenceu foi o de um amigo negro que disse que falar de Obama e colocar um macaco, a primeira vista, sempre vai parecer racismo.
Há interpretações diferentes sobre a questão. Ainda acho que o macaco da charge é o povo brasileiro dando uma “banana” para o Obama.
Qual sua opinião? Comenta na seção de comentários!

Charge causa demissão de cartunista no Paraná

Por Paulo Ramos

  • Desenho foi publicado sábado no jornal virtual “Paraná On-Line”
  • Charge de Solda repercutiu na internet como sendo racista
  • Cartunista diz que intenção foi mostrar brasileiros dando “banana” a EUA

Charge de Solda. Crédito: desenho cedido pelo autor

O cartunista Solda foi chamado pela redação do “Paraná On-Line”, no início da semana, para uma conversa. Soube, então, que havia sido demitido do site, onde atuava desde 2005.

O motivo foi a má repercussão de uma charge sua, publicada no último sábado, dia 19. A arte fazia alusão à visita ao Brasil do presidente norte-americano Barack Obama.

O desenho mostrava um macaco dando uma “banana”. Uma legenda trazia a frase “Almoço para Obama terá baião de dois, picanha, sorvete de graviola e banana, muita banana!”.

O trabalho repercutiu na rede. O maior eco se deu após ser reproduzido no domingo no blog do jornalista Paulo Henrique Amorim, que viu no trabalho um conteúdo racista.

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Até as 17h desta quinta-feira, havia 192 comentários na postagem de Amorim sobre o assunto. Parte delas defendia o cartunista. Outra enxergava ali teor racista.

A associação feita foi a de que o macaco representaria o presidente norte-americano, algo que já ocorreu nos Estados Unidos durante a campanha eleitoral dele.

“Jamais imaginei isso”, diz Luis Solda, por telefone. “Jamais faria isso com um chefe de estado ou com um irmão meu. Aí é racismo mesmo. O macaco é o povo brasileiro.”

O desenhista diz que o alvo eram os Estados Unidos. “O brasileiro dando uma ´banana´para os americanos que sempre consideram os sul-americanos o quintal da casa deles.”

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“A repercusão me causou espanto. Sou um sujeito pacato, modesto, não saio de casa e jamais imaginei que uma charge minha serviria para esse rebuliço todo.”

A charge foi retirada do arquivo virtual do jornal on-line. Na conversa sobre sua demissão, Solda diz ter ouvido do site que diversas entidades de negros estavam processando o jornal.

“O jornal tirou o deles da reta e eu fui mandado embora”, diz o desenhista de 58 anos, vencedor por três vezes no Salão Internacional de Humor de Piracicaba na categoria charge.

Nas leitura dele, “estão ateando fogo aos chargistas”. A frase faz referência a outra charge que causou polêmica na semana passada, publicada na “Folha de S.Paulo”.

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O jornal paulista veiculou uma charge sobre o tsunami que devastou parte do Japão. O desenho, de João Montanaro, recuperava uma pintura antiga e dava nova leitura a ela.

A arte de Montanaro foi interpretada por alguns leitores do jornal como um ato de mau gosto, como sendo uma piada sobre a tragédia. Muitos cartunistas defenderam o desenho.

O assunto foi, inclusive, tema da ombudsman da Folha, Susana Singer, na coluna do último fim de semana.

“Há uma intolerância contra os chargistas. Não dúvida”, diz Solda.

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Outro lado. Rafael Tavares, diretor-executivo do grupo Paulo Pimental, que administra o “Paraná On-Line”, entende que houve um erro na veiculação da charge de Solda.

“Acho que não deveria ter sido publicada”, disse no fim da tarde, por telefone. “Acho que ela permite a interpretação [feita] pelos outros e também a que Solda fez.”

Tavares diz que, após ver o desenho, pediu que a arte fosse retirada do ar. O jornalista entende, no entanto, que a maior repercussão se deu fora do site.

Ele diz ter recebido nesta quinta-feira um manifesto contra a charge assinado por cinco entidades ligadas a grupos de defesa dos direitos dos negros.

Fonte: http://blogdosquadrinhos.blog.uol.com.br/

ONU: dois pesos, duas medidas

O presente artigo foi publicado na revista eletrônica Carta Maior.

A autora Larissa Ramina é  doutora em Direito Internacional pela USP e professora da UniBrasil e da UniCuritiba. O artigo abre uma discussão correta e necessária sobre a ONU. O seu papel na atualidade é verdadeiramente de realizar um trabalho sujo sem proporções.

Só discordo de uma questão. Não é fato progressivo o Brasil se abster com a Russia, China, Índia e Alemanha. Se nosso país estivesse realmente preocupado com o povo Líbio, não poderia se abster. Deveria votar contra.  A abstenção é a indiferença a extensão da guerra que já se desenvolve no Afeganistão desde 2001 e no Iraque desde 2003 para o território líbio. Não tenho nenhuma simpatia pelo Coronel Khadafi.  Ele, desde os atentados de 11 de setembro se tornou um grande amigo dos EUA, da França e até de Israel. No caso da França, ele chegou a financiar a campanha do atual presidente Sarkozy, como declarou um dos filhos de Khadafi. Mas quem deve dar um fim na ditadura Líbia é o povo da líbio.

O que as potências européias e os EUA querem é saquear a Líbia como já fazem com o Iraque. E querem também pressionar os povos da Tunísia e do Egito para que não avancem com o processo revolucionário que desenvolvem por liberdade, por seus direitos trabalhistas (emprego, salários)  e soberania de suas nações.

ONU: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS

Larissa Ramin

Em 1994, Ruanda foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

A Líbia foi o primeiro país em toda a história do Conselho de Direitos Humanos da ONU a ser suspenso de suas atividades por violação dos direitos humanos. Seria a Líbia o primeiro Estado a ocupar uma cadeira no Conselho a violar aqueles direitos? O que dizer das prisões norte-americanas em Guantânamo e da expulsão dos ciganos na França, para citar só dois exemplos?

O Conselho de Segurança da ONU adotou, em 17 de março, uma resolução autorizando ataques aéreos contra as forças de Muamar Khadafi. A resolução foi adotada com dez votos a favor e cinco abstenções. Abstiveram-se todos os países do BRIC – Brasil, Rússia, Índia, China, e mais a Alemanha. Rússia e China, portanto, não fizeram uso de seu direito de veto. Os BRIC articularam-se com base na condenação do uso da força nas relações internacionais e na busca do diálogo.

Ao contrário da expectativa de alguns círculos, a abstenção brasileira significou, no mínimo, que não haverá uma ruptura total com os rumos da política externa antecessora, nem mesmo diante da visita de Obama ao Brasil. A liderança de Dilma Roussef não penderá para o alinhamento automático com os EUA. Como bem salientou Luiz Aberto Moniz Bandeira, a defesa dos interesses nacionais brasileiros não significa, absolutamente, antiamericanismo. A opção brasileira de se abster demonstra maturidade e, sobretudo, coerência.

A resolução contra a Líbia só pôde ser adotada quando os EUA tornaram possível seu não envolvimento direito, delegando a execução das operações militares à França e ao Reino Unido, com o apoio da Liga Árabe, e com base em uma resolução do Conselho de Segurança, precavendo-se assim de reviver a situação ocorrida no Iraque.

A Líbia integrará, portanto, a lista de antigos aliados ocidentais que se tornaram alvos militares por “violação dos direitos humanos”, junto com o Panamá de Manuel Noriega, o Iraque de Saddam Husseim e o Afeganistão do Talibã. De “cachorro louco”, Khadafi passou a amigo do Ocidente quando reconheceu, em 2003, sua responsabilidade no atentado contra o avião da PanAm que explodiu sobre a cidade de Lockerbie, em 1988, deixando 270 mortos, e desistiu de seu projeto de desenvolver armas nucleares. Em 2006, os EUA anunciaram a retirada da Líbia da lista de países terroristas e puseram fim ao seu isolamento internacional, viabilizando contratos milionários na área energética, inclusive com outros importantes países membros da OTAN.

Um dos maiores crimes contra os direitos humanos do século XX, entretanto, ocorreu sob os olhos indiferentes da comunidade internacional, sem que a ONU adotasse quaisquer medidas. Em 1994 a Ruanda, país sem qualquer importância estratégica cravado no coração da África, foi palco de um genocídio perpetrado durante 100 dias por radicais hutus contra tutsis e hutus moderados, resultando na morte de cerca de um milhão de pessoas. Os principais acusados pela indiferença são os mesmos que aprovaram a resolução do Conselho de Segurança contra a Líbia, ou seja, EUA, França e Grã-Bretanha, além da Bélgica.

O Bahrein, por sua vez, está sendo palco dos mais graves protestos da maioria xiita contra a elite sunita desde a década de noventa, que pede o fim da monarquia e a garantia das liberdades democráticas. Nesse caso, não se aventou a possibilidade de discutir a situação no âmbito das ONU, apesar da ocupação do país por tropas da vizinha Árabia Saudita e dos Emirados Árabes. O detalhe que faz a diferença, é que o microestado abriga a V Frota dos EUA responsável por vigiar o petróleo no Golfo Pérsico. A situação no Iêmen, da mesma forma, não mereceu atenção ocidental. A política externa de Barack Obama, portanto, coincide na essência com aquela de George Bush.

Coincidência ou não, a conduta da ONU também difere diante de situações similares, e a lei internacional é aplicada com mais ou menos rigor de acordo com a conveniência. Dois pesos, duas medidas.

LARISSA RAMINA é Doutora em Direito Internacional pela USP e Professora da UniBrasil e da UniCuritiba.