Sobre os Rolezinhos – textos, vídeos e charges

rolezinho (1)

As vezes a concentração de um tema na pauta das pessoas – na conversas no ônibus, na TV, nos jornais, nas revistas… – afogam as pessoas em versões sobre um tema. Entender a questão passa a ser complicado.

Quando os aviões atingiram o World Trade Center em 11/9/2001 aconteceu isso em nível planetário. Na época a internet era muito diferente de hoje. A chegada da chamada internet 2.0, onde a simplificação da comunicação facilitou a troca de impressões e opiniões, criou situações novas. Hoje quase todo celular está conectado à uma rede social e as pessoas se comunicam mais. E do mundo virtual as pessoas passam a querer viver o mundo real.

Em 2013, as jornadas de junho, onde mobilizações juvenis impuseram a derrota aos aumentos do transporte coletivo e ao mesmo tempo colocou diferentes outros temas na ordem do dia como o direito aos serviços públicos e a luta pela desmilitarização da Polícia Militar.

Nas conversas, muitos lembra que os rolezinhos não são novidade. Talvez a novidade seja a escala, a visibilidade e principalmente o fato de passarem a ocorrer em shoppings. Esses espaços de ostentação do consumismo, passou a ser debatido. Debate de vital importância, particularmente porque esses centros de compras são territórios da segregação e na maior parte das vezes estão intimamente ligados com a degradação social da cidade. O shopping nasce da falência da cidade. E os interessados nos lucros dos Shoppings não tem outro interesse que não seja a ampliação dos seus objetivos de lucro. Nos últimos anos, ao menos em SP, inúmeros shoppings abertos e com eles terríveis mudanças urbanas contra o comércio de rua, contra o transporte coletivo e até casos de incêndios em favelas nas suas proximidades. Mas isso é tema para outros textos.

A questão dos rolezinhos é o tema da coletânea de artigos que fiz. Diferentes abordagens mostram que os eventos evidenciam o abismo social existente no Brasil, o impacto da propaganda de consumo sobre as pessoas e principalmente o racismo e a violência do Estado e dos proprietários dos shoppings contra a juventude da periferia no Brasil.

Shoppings fazem propagandas na televisão chamando pessoas para seus espaços para agora irem a justiça (e conseguirem liminares judiciais) para proibir que determinados “tipos” de pessoas não entrem em seus espaços, numa atitude que lembra o tratamento do Estado de Israel aos jovens palestinos nos “postos de controle” ou ao tratamento dado à juventude negra da África do Sul durante o Apartheid.

Optei em fazer uma coletânea de artigos e matérias que li. Optei pois assim é possível ver a diversidade de abordagens e de questões que o tema possui. Os links dos artigos completos estão nos títulos.

1513308_652305044835072_1956506994_n

Verbete de Rolezinho na Wikipédia

“Rolezinho (diminutivo de “rolê”, gíria do português brasileiro que significa “encontro” ou “passeio”) é um tipo de flash mob que envolve organizar encontros entre centenas ou milhares de jovens de bairros periféricos em shopping centers. O fenômeno tem ocorrido principalmente em São Paulo, mas já houve encontros semelhantes em Guarulhos e Campinas. Há registros também de rolezinhos em parques.”


 

ROL3ZINHO – Matéria da Veja São Paulo

Em anos não vejo uma matéria tão ponderada, pesquisada e produzida pela revista Veja. Vale a pena.

Rolezinhos por Rafael Coimbra

140116-Rolezinho

“Sérgio Vaz: No rolezinho, jovens devolvem “educação de qualidade”; periferia vive a sua Primavera de Praga” – Matéria do site Vi o Mundo

“São os jovens que não tem educação, são os jovens que não tem saúde, somos nós os pretos — como diria Castro Alves, somos nós, os teus cães. A sociedade colocou embaixo do tapete, mas não cabe todo mundo. O Estado tem ódio do pobre e do negro. Eu não sei de onde vem tanto ódio!”

Pantone

Vozes da periferia definem o que é rolezinho – Portal do Empresa Brasileira de Comunicação (EBC)

Populares e polêmicos devido aos recentes conflitos em shoppings de São Paulo, os rolezinhos recebem diferentes definições de especialistas, acadêmicos e militantes. Mas os encontros organizados pelos jovens ganham novas interpretações quando se conversa com os protagonistas dessa história, os integrantes de comunidades da periferia.

charge-Rolezinho-Apartheid-Vitosteixeira-pequena

‘Rolezinhos’ na palavra de quem vai – Matéria do portal G1

Depoimentos de jovens participantes. Muito bem bolada a pauta de dar voz a quem vai nos rolezinhos.

rolezinhos

Violência racista contra os jovens – Priscilla Chandretti, página da Juventude Revolução

“Os jovens haviam entrado (e não invadido!) no shopping para se proteger da ação da própria PM que gerou tumulto em um baile funk, próximo ao shopping – desde aí começou a violência racista! A própria assessoria de comunicação do shopping descartou a ocorrência de um arrastão e afirmou que nenhuma loja foi roubada ou danificada. Mas o secretário de Segurança Pública do Estado, André Garcia, tenta explicar: “Havia um tumulto e algumas pessoas relataram furtos na praça de alimentação. A polícia agiu corretamente. A intenção era identificar quem invadiu o shopping”. Nesse momento não havia dúvida para a PM: vamos logo deter todo jovem com cara de funkeiro!”

650

‘Rolezinhos’ são realidade há anos em shoppings dos EUA – Site da BBC

“No Brooklyn, o Kings Plaza Shopping Center foi palco de um encontro de ao menos 300 jovens, convocados pelas redes sociais. Testemunhas disseram à imprensa local que eles gritavam, empurravam transeuntes e roubaram lojas. O shopping acabou fechando as portas por uma hora, informa o New York Post.
No dia seguinte, menores de idade não acompanhados de adultos foram barrados do local, despertando críticas dos que se sentiram tolhidos pela medida – e que queriam apenas fazer compras – e elogios dos que temiam novas cenas de confusão.”

charge-do-jarbas-no-dic3a1rio-de-pernambuco-de-ontem

Rolezinhos: qual deles combina com você? – Artigo de Gabriela Leite republicado no site da Carta Capital

“Os temidos adolescentes da periferia que ocupam às centenas os shoppings paulistanos não tencionam nada muito diferente do que é feito normalmente em boates, bailes, festas e reuniões de outras pessoas da sua idade. A diferença é que a rede permite que muitos se conheçam e marquem encontros em massa. Gostam, como muitos outros adolescentes de diferentes classes sociais, de “causar” — chamar a atenção, fazer bagunça. Praticar isso em um shopping apenas reflete o que a vida lhes ensinou desde sempre: o consumo define a pessoa que você é, e para estar dentro desta sociedade é muito recomendável mostrar para todos o que você tem. Fazer baile de funk ostentação na rua não pode, mas marcar encontros no shopping também não?”

rolezinho

A Periferia vai ao Paraiso – Matéria da Revista Fórum

“Consumo, sucesso e individualismo são hoje valores largamente hegemônicos na sociedade brasileira. Some-se a isso que essa molecada cresceu não apenas sendo bombardeada pela publicidade e pelos estímulos ao consumo como por um certo tipo de abordagem midiática que quase todo o tempo criminaliza a política.”

charge (1)

Meu rolezinho no Rolezinho – Matéria da Revista VICE

“Sábado passado foi certamente um dos dias mais tristes de minha vida (…) o chefe da segurança do shopping estava e expulsava as crianças como se elas fossem cachorros vira-latas (nada contra animais) e lixo. Fiquei observando o procedimento adotado pelos seguranças e policiais. Só estavam deixando entrar famílias e casais maiores de idade. Os negros tinham suas bolsas e calças revistados — famílias inteiras de negros eram revistadas. A entrada de adolescentes brancos desacompanhados de maiores era liberada. Os adolescentes eram barrados e expulsos do shopping. (…) Não imaginava que um encontro pacífico marcado virtualmente terminaria em espancamento de adolescentes por policiais. Que o comércio receberia tão mal possíveis clientes. Que um shopping jogaria seu nome na lata do lixo publicamente por conta de um método de seleção por meio de cor e etnia para circular em seus estabelecimentos. E que a opinião publica iria aceitar que a culpa de um problema maior fosse colada em adolescentes.”

Quem tem medo de rolezinho? – Matéria da Revista Fórum

L.X (que pediu para ter nome e idade ocultados) é um participante dos rolezinhos e conversou com a reportagem do SpressoSP. O jovem declarou que a ideia central é “encontrar os amigos, conhecer pessoas, só que com um número maior de pessoas”. Sobre a acusação de promoverem arrastão e roubos, L.X desmente. “Não estamos invadindo nada, a gente só quer se divertir, só que vamos com mais pessoas, mas nada além disso”. O entrevistado chama a atenção para a ausência de espaços públicos e reclama da “falta de atenção dos políticos”, atestando que a sensação é de “abandono”.

1490702_781379198556597_2129245307_o

Etnografia do “rolezinho” – Rosana Pinheiro-Machado, artigo no site da Revista Carta Capital

“Uma vez um menino disse que usava as melhores roupas e marcas para ir ao shopping para ser visto como gente. Ou seja, a roupa tentava resolver uma profunda tensão da visibilidade de sua existência. Mas, noutro canto, os donos da loja se assustavam e cuidavam para ver se eles não roubavam nada. Um funcionário disse à Lucia a mais honesta frase de todas (uma honestidade que corta a alma): “não adianta eles se vestirem com marca e virem pagar com dinheiro. Pobre só usa dinheiro vivo. Eles chegam aqui e a gente na hora vê que é pobre”. Eles, no entanto, acreditavam que eram os mais adorados e empoderados clientes das lojas. (…) Um funcionário da Nike uma vez declarou para a pesquisa: “nós nos envergonhamos desse fenômeno de apropriação da nossa marca por esses marginais”. Mas eles nos diziam: “as marcas deveriam nos pagar para fazer propaganda, porque nos as amamos. Sem marca, você é um lixo”. “

Charge

Rolezinho não é caso de polícia, diz Ministra dos Direitos Humanos

“A ministra Maria do Rosário, da Secretaria dos Direitos Humanos da Presidência da República, disse que “rolezinho não é caso de polícia, é caso de presença da juventude” nesta sexta-feira, 17, em Porto Alegre, ao final da solenidade de inauguração de um Centro de Referência em Direitos Humanos.

“Ainda que (os shopping centers) sejam lugares privados, eles são lugares para onde o público é convidado a ir; as pessoas não podem ser separadas nesses lugares entre aquelas que têm dinheiro para consumir e aquelas que não têm”, justificou.”

12-01-2014

A hora da política – “O rolezinho e o risco de uma guerra por recursos ‘longa e dolorosa'” – por André Singer, Folha de S. Paulo

O prefeito Fernando Haddad indicou o caminho certo. Diante do crescimento do conflito causado pelos “rolezinhos”, estimulou as partes a conversar. Como ficou claro em junho passado, atitudes extremadas só levarão ao desgaste da autoridade pública, com aumento da tensão social já visível nas grandes metrópoles.

O problema é que não há solução fácil no horizonte. Não basta disposição para o diálogo quando interesses materiais e simbólicos começam a se opor de maneira radical. Os jovens que estão deixando os centros de compra em pânico podem não saber, mas explicitam um confronto crescente entre ricos e pobres no Brasil.

A fala de Haddad e o silêncio de Dilma – Artigo de Antônio Martins no site Outras Palavras

Desta vez o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad foi preciso e veloz. Diante da atitude da PM paulista, que reprimiu com truculência um rolezinho de jovens periféricos num shopping da cidade, ele relacionou o movimento à segregação social brasileira. Lembrou que faltam, à maior parte da juventude, até mesmo “espaços para usufruir a cidade”. E, ao invés de mobilizar a Guarda Civil Metropolitana contra os que buscam tais espaços, preferiu orientar as secretarias de Cultura e Igualdade Racial a dialogar com eles.

Decifrando-o-rolezinho

[ uma boa resposta para essa Charge foi essa  abaixo, do escritor Ricardo Lisias ]

ROLEZINHO NA LINGUÍSTICA – Artigo do escritor Ricardo Lisias, via Facebook

Povo desse meu amado Brasil, vejam vocês que escrever não é falar! Se nós gravarmos a fala de pessoas de classe social e escolaridades diferentes, vamos descobrir que todos igualmente adotam os mesmos procedimentos. Ou seja, não é apenas uma pessoa pobre que faz reduções na palavra e pronuncia “vamô”. Uma madame fala “to cas costa doeno”. Aliás, fala o dia inteiro.

Vejam aqui no Facebook como muita gente escreve “bora para o JK Iguatemi”. Então, transcrever foneticamente a fala de apenas uma classe social serve exclusivamente para estigmatizá-la…

Não estou aqui dizendo que esses rolezinhos são uma coisa bastante elegante e educada, ou que esses meninos estão muito politizados. Politizada foi a reação da justiça, da polícia e dos proprietários dos Shoppings. Só estou dizendo que por aqui é tudo igual. Todas as classes são vulgares e deselegantes. Só que uns podem ser tranquilamente, enquanto outros vão levar umas cacetadas. Não foi antes de ontem que um playboyzão agrediu uma artista plástica num restaurante caro de São Paulo só porque ela pediu um pouco mais de silêncio?

Então, meu amigo, entende um negócio: você não está passeando na margem do Hudson, você está aí na marginal Tietê, que fede. No Brasil, a única coisa democrática é a nossa língua suja. Esse aí não é o Noam Chomsky na televisão, não, meu filho. Olha direito: é o Arnaldo Jabor falando as barbaridades dele.

Muito bom dia, o fim de semana amanhece lindo na cidade de São Paulo! Não é o Quai de Seine, s’il vous plaît.

rolezinho

A hora da política – “O rolezinho e o risco de uma guerra por recursos ‘longa e dolorosa'” – por André Singer, cientista político e professor da USP, na Folha de S. Paulo

“O prefeito Fernando Haddad indicou o caminho certo. Diante do crescimento do conflito causado pelos “rolezinhos”, estimulou as partes a conversar. Como ficou claro em junho passado, atitudes extremadas só levarão ao desgaste da autoridade pública, com aumento da tensão social já visível nas grandes metrópoles.

O problema é que não há solução fácil no horizonte. Não basta disposição para o diálogo quando interesses materiais e simbólicos começam a se opor de maneira radical. Os jovens que estão deixando os centros de compra em pânico podem não saber, mas explicitam um confronto crescente entre ricos e pobres no Brasil.”

O rolê da ralé – entrevista com o sociólogo Jessé de Souza, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora ao Estado de S.Paulo

O problema real não é, em primeiro lugar pelo menos, nem da polícia nem das autoridades. É o apartheid social entre classe média europeizada e classes populares “bárbaras” de que falei. Ele cria regras não escritas e, por causa disso mesmo, muito eficientes – uma espécie de “constituição pré-jurídica” para a manutenção do racismo de classe que é nossa verdadeira lei maior. É esse apartheid que criou o tipo de polícia e a cultura da violência que temos. Ainda que a classe média – e suas frações mais conservadoras – não decida mais eleições majoritárias no Brasil, é ela que detém a hegemonia política e cultural e influencia não só amplos setores das próprias classes populares, mas também decide o que é julgado nos tribunais, o que é publicado nos jornais, dito na TV e o que é discutido nas universidades. Ela domina a esfera pública que decide o que é certo e errado na prática cotidiana real e é por isso que temos uma agenda de “políticas públicas informais” que inclui, por exemplo, matança indiscriminada e violência contra os pobres sem que ninguém – salvo em exceções dramatizadas pela mídia como o caso de Amarildo no Rio – seja responsabilizado. A ação do Estado e de seus órgãos é muito mais decidida por essas leis não escritas da sociedade do que pelos seus estatutos escritos para inglês ver”

Chico Buarque falando sobre o racismo

Meu amigo Arthur Dantas, mestre que é, deu a dica desse vídeo do Chico Buarque tratando do racismo. Se suas músicas são aulas de linguagem, história e paixão, suas palavras sobre a questão racial vão fundo na simplicidade.

Para quem vai encarar o ENEM é uma aula com o poeta Chico Buarque, filho de Sérgio Buarque Holanda  e parente distante de Aurélio Buarque de Holanda. Uma aula imperdível.

Vale a pena assistir.

Racismo salarial no Brasil

Peguei no Portal Aprendiz. Os dados são impactantes:

O contracheque é a prova de que tem aumentado a discriminação entre negros e brancos no Brasil. A diferença entre as raças se acentua a medida que se sobe na hierarquia. Pior: nem mesmo a escolaridade ameniza o “racismo salarial”. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostra que o trabalhador-padrão deve ser homem e branco. Na prática, a política de reserva de mercado é para os brancos.

O rendimento horário de um trabalhador negro não chega a metade do de um branco (48%). As mulheres brancas recebem 74% do salário de um branco e as negras, apenas 35%. Quando se compara por classe social, homem negro “pobre” ganha 20% a menos do que o branco de mesma classe social. Entre os “ricos”, a margem de diferença se alarga para 30%. No mercado de trabalho feminino, as negras mais “pobres” recebem um salário 45% inferior ao das brancas, mesmo ocupando o mesmo cargo. As da “alta classe” convivem com uma diferença salarial de 65%.

Nem mesmo a maior escolaridade iguala os salários de homens e mulheres, negros e brancos. Na comparação entre homens brancos e negros, estes recebem 76% do salário dos primeiros, quando têm o diploma o ensino fundamental. Aqueles que chegaram ao ensino médio, recebem ainda menos, 74%. As mulheres brancas com oito anos de estudo recebem o equivalente a 68% do salário de um homem branco com mesma escolaridade. As que têm 13 anos de banco escolar têm a remuneração reduzida a 58% do salário “masculino”. Com um agravante: são as mulheres brancas as com maior média de escolaridade – 8,1 anos contra 7,3 anos de estudo dos homens brancos.

Leia mais: BRASIL – RETRATO DAS DESIGUALDADES: GÊNERO E RAÇA (Estudo do IPEA)

O racismo não cordial do brasileiro

O raças não existem. Mas o racismo existe. Veja o caso do tratamento dado pelo restaurante Nonno Paolo ao filho adotivo de um casal espanhol.

Abaixo um texto publicado por Mario Sergio, amigo do casal divulgado no site do jornalista Luis Nassif.

Mais informações você pode ler no portal G1 clicando aqui.

O racismo não cordial do brasileiro

Por Mario Sergio

Neste final de ano pude testemunhar e viver a vergonha dessa praga do racismo aqui em nossa multicultural São Paulo. E com pessoas próximas e queridas. Não dá para ficar calado e deixar apenas o inquérito policial que abrimos tomar conta dos desdobramentos desse episódio lamentável e sórdido.

Na sexta feira, 30, nossos primos, espanhóis, e seu pequeno filho de 6 anos foram a um restaurante, no bairro Paraíso (ironia?) para almoçar. O garoto quis esperar na mesa, sentado, enquanto os pais faziam os pratos no buffet, a alguns metros de distância. A mãe, entre uma colherada e outra, olhava para o pequeno que esperava na mesa. De repente, ao olhar de novo, o menino não mais estava lá. Tinha sumido.

Preocupada, deixou tudo e passou a procurá-lo ao redor. Ao perguntar aos outros frequentadores, soube que o menino havia sido retirado do restaurante por um funcionário de lá. Desesperada, foi para a rua e encontrou-o encolhido e chorando num canto. Perguntado (em catalão, sua língua) disse que “o senhor pegou-me pelo braço e me jogou aqui fora”.

O casal e a criança voltaram para o apartamento de minha sogra e contaram o ocorrido. Minha sogra que é freguesa do restaurante, revoltada, voltou com eles para lá. Depois de tergiversações, tentativas de uma funcinária em pôr panos quentes, enfim o tal sujeito (gerente??) identificou-se e com a arrogância típica de ignorantes, disse que teria sido ele mesmo a cometer o descalabro. Mas era um engano, mas plenamente justificável porque crianças pedintes da feira costumavam pedir coisas lá e incomodar. E que ele era bom e até os alimentava de vez em quando. Nem sequer pediu desculpas terminando por dizer que se eles quisessem se queixar que fossem à delegacia.

Minha sogra ligou-me e, de fato, fomos à delegacia do bairro e fizemos boletim de ocorrência. O atendimento da delegada de plantão foi digno e correto. Lavrou o BO e abriu inquérito. Terminou pedindo desculpas e que meus primos não levem uma impressão ruim do Brasil.

Em tempo: o filho de 6 anos é negro. Em um e-mail (ainda não respondido pelo restaurante Nonno Paolo) pergunto qual teria sido a atitude se o menino fosse um loirinho de olhos azuis.

Cadê os negros e índios da São Paulo Fashion Week?

Interessante texto sobre o mundo da moda e a participação dos “modelos” da moda. “Modelo” é um conceito curioso.  É quem dita a moda. O mercado dita “modelos” para tudo. É parte da lógica do sistema capitalista que impõe na boa definição da jornalista e escritora canadense Naomi Klein “a tirania das marcas”.

O Brasil tem rosto. O censo nacional de 2010 realizado pelo IBGE encontrou o Brasil sendo composto por 91 milhões de brancos, 82,2 milhões de pardos, 14,5 milhões de negros, 2,1 milhões de amarelos e 817 mil indígenas. E a propaganda esconde a rosto do Brasil pois ele é exageradamente fora do “target” (alvo, objetivo, diria o dicionário). Isso tem motivo, a cara da maioria do povo brasileiro é cara de trabalhadora que mistura a origem africana, imigrante euro-asiática e indigena para ralar todos os dias.

Do Blog Viva Mulher, da minha amiga Maíra Kubík Mano

Em 2008, o Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para investigar uma possível discriminação racial na São Paulo Fashion Week (SPFW). À época, apenas 3% dos modelos que participavam do evento eram afrodescendentes, negros ou indígenas. Meses depois, a organização da SPFW aceitou assinar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em que se comprometia a estimular as grifes a cumprir uma cota de 10% desses modelos por desfile. O TAC funcionou bem… até o mês passado, quando “vencia” sua validade. Com o fim da obrigatoriedade de o evento promover as cotas, o que se viu nas passarelas foi uma nova onda branca.

A denúncia foi feita hoje pelo jornal Folha de S.Paulo, em matéria de Nina Lemos e Vitor Angelo. Algumas grifes, segundo eles, tinham apenas uma modelo, que se repetia em todas: a top Bruna Tenório, descendente de indígenas. Outras “até colocaram” alguns negros, mas longe dos 10% estabelecidos pelo MP.
Continuar lendo

As origens da biomedicina, o racismo e ausência de ética na ciência

Henrietta Lacks

Livro resgata mulher que transformou a biomedicina

Obra é passeio assustador por ética em pesquisas e estigmas raciais dos EUA

Família não sabia de experimentos com células de paciente, relata “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”

REINALDO JOSÉ LOPES
EDITOR DE CIÊNCIA

Por anos, a americana Deborah Lacks teve pesadelos com os experimentos macabros que cientistas do mundo todo andavam fazendo com sua pobre mãe, Henrietta.

A mãe de Deborah tinha sido inoculada com o vírus da poliomielite, clonada milhões de vezes, submetida a explosões atômicas e à microgravidade do espaço sideral. Tudo isso depois de morrer de câncer e ressuscitar, tornando-se imortal.

É claro que há um mal-entendido trágico nessa história. Henrietta Lacks morreu em 4 de outubro de 1951. Mas o câncer de colo de útero que a matou deu origem, em laboratório, às células HeLa, a mais importante linhagem “imortal” de células humanas, que viraram ferramentas indispensáveis para a biomedicina. Essa revolução tecnológica aconteceu sem o conhecimento ou o consentimento da morta ou de sua família, conta a bióloga e escritora Rebecca Skloot em “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, que acaba de chegar ao país.

NÓDOA

A obra é um passeio esclarecedor -e assustador- pelo nascimento da biotecnologia e da (falta de) ética em pesquisa com seres humanos. E também pelas mazelas raciais do sul dos EUA: os Lackses eram negros da zona rural da Virgínia, nascidos e criados numa cabana de escravos, plantando tabaco.

“Aparentemente os cientistas nunca se deram ao trabalho de explicar o que foi feito das células de Henrietta porque achavam que os Lackses seriam incapazes de entender aquilo”, disse Skloot à Folha.

“Isso foi antes do movimento dos direitos civis, no atendimento a negros pobres numa ala de indigentes do hospital [da Universidade Johns Hopkins], então a transparência nem era uma consideração para os médicos”, lembra a autora.
“Aliás, mesmo pacientes brancos tinham seus tecidos retirados e usados para pesquisa sem consentimento.” A coisa piorou décadas depois, quando o marido e os filhos de Lacks foram procurados para estudos genéticos, dada a importância crescente das células HeLa.

“Para pessoas como eles e para o público em geral, a diferença entre clonar uma pessoa e clonar apenas suas células fica completamente borrada”, diz Skloot. “Mas, no fim das contas, eles conseguiram entender a importância das células, e o fato de que a mãe deles não sofria com os experimentos.”

A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS


AUTOR Rebecca Skloot

EDITORA Companhia das Letras

TRADUÇÃO Ivo Korytowski

QUANTO R$ 42 (464 págs.)

AVALIAÇÃO ótimo

Fonte:  Folha de S. Paulo, 26/3/2011

Racismo na prática: a dona de casa negra e o Walmart

A questão racial e o combate ao racismo é algo sempre presente no ENEM. É uma questão que aparece em várias competências.  E é algo que deve ser entendido. E o racismo, combatido.

Abaixo uma notícia no mínimo assombrosa da ação de um hipermercado contra uma dona de casa. É algo que qualquer cidadão tem a obrigação de ficar indignado.

Polícia investiga caso da mulher negra humilhada no Walmart

Osasco/SP – O delegado Léo Francisco Salem Ribeiro, do 9º DP de Osasco, começará a ouvir, nesta quarta-feira (16/03), às 15h, os depoimentos da vítima e de testemunhas no Inquérito Policial que investiga os crimes de injúria racial, calúnia e difamação, contra a dona de casa Clécia Maria da Silva, 56 anos, praticados por seguranças do Hipermercado Walmart, da Avenida dos Autonomistas, em Osasco.

Além da própria dona de casa, serão ouvidos o padeiro Vagner Nisti e sua mulher, Sueli Aparecida Pereira Nisti, que presenciaram o fato e a acompanharam para registrar o Boletim de Ocorrência na Polícia.

Este é o terceiro caso, só este ano, que envolve crimes de discriminação contra negros em redes de supermercados e portas giratórias de bancos, em S. Paulo.

No dia 13 de janeiro, o menor T., de 11 anos, e mais três pré-adolescentes (os três negros) foram abordados por seguranças no Hipermercado Extra, da Marginal do Tietê, levados para um quartinho sob suspeita de furto e obrigados a baixar a bermuda sob ameaças de chicotadas e xingamentos de “negro fedido” e “negro sujo”. O garoto havia pago as mercadorias e o caso está sendo investigado pelo 10º DP da Penha.

No dia 09 de fevereiro, o poeta da Cooperifa, cantor, compositor e rapper, Luciano Dimes da Silva, o James Banthu, 28 anos, foi impedido de descontar o cheque do seu salário na Ação Educativa, onde exerce a função de arte-educador, no valor de R$ 504,00, por seguranças da agência do Banco do Brasil da Rua Regro Freitas, centro, com o apoio de dois Policiais militares que o revistaram sob ameaça de prisão. O caso está sendo investigado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

Caso Walmart

A violência discriminatória contra a dona de casa de Osasco, no Walmart, aconteceu no dia 16 de fevereiro, quando ela, após passar pelo caixa e pagar as mercadorias, foi abordada por um segurança do hipermercado, depois de andar alguns metros. “Deixe ver essas bolsas”, ordenou o homem, rispidamente.

Diante da reação da mulher assustada, o segurança teria acrescentado: “Isso acontece mesmo com os pretos”, retirando bruscamente as pequenas sacolas que a mulher carregava, sob os olhares de clientes da loja.

Em conseqüência, a dona de casa passou mal e teve de ser socorrida por ambulância da própria loja e removida para o Hospital Montreal, de Osasco, onde ficou hospitalizada por pelo menos quatro horas. A médica que a atendeu – Daniela Camargo – diagnosticou crise hipertensiva e disse a Érica Patrício da Silva, a nora da dona de casa que foi chamada para socorrê-la, que a dona de casa esteve muito próxima de sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

Hospital

Dona Clécia permaneceu internada cerca de 4 horas – entre as 18h52 e 22h50 – porém, posteriormente no sábado, dia 19/02, teve de voltar ao Hospital porque continuava se sentindo mal. “Ele [o segurança] me obrigou a abrir a bolsa, e depois que viu que não estava levando nada e que havia pago tudo, assinou o canhoto da comprinha que eu fiz. Não sei porque eles fizeram isso comigo”, contou, afirmando que, por morar na Vila Serventina, habitualmente fazia compras na loja.

Érica, a nora, que hoje também será ouvida, disse ter ficado muito assustada quando recebeu o telefone. “Ela me ligou desesperada. Venha aqui no Walmart, pelo amor de Deus. Quando cheguei a gerente do supermercado estava com a bolsa dela na mão. Eles estavam tratando dona Clécia como uma ladra, pelo traje que estava vestida e pelo fato de ser negra”, afirmou.

Risco de AVC
Segundo Érica, a médica do Hospital Montreal que socorreu a dona de casa, disse que sua pressão estava muito alta e que se demorasse um pouco mais teria tido um AVC. Ela contou que foram os próprios policiais militares, chamados para atender a ocorrência, que orientaram a fazer o registro da queixa na Delegacia.

Depois dos depoimentos previstos para esta quarta-feira, o delegado Salém Ribeiro também deverá ouvir o gerente da loja, os funcionários que transportaram a mulher ao Hospital, a médica que atendeu a ocorrência, e os PMs, que foram chamados pelos parentes da dona de casa.

Também deverão ser requisitados as imagens do circuito interno de TV da loja e pedida a administração do hipemercado que informe quem eram os seguranças de serviço no dia e horário em que o fato ocorreu. “Eu só quero Justiça”, finalizou a dona de casa.

Fonte:  Afropress